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— Temos a consciência adormecida.

— Não entendo, que quer dizer com isso, Ruth?

— Lucas 20, versículo 38: ...Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, porque para ele todos vivem.

— Não podemos morrer? ... 

— Não, mas há coisas piores que a morte. Embora também há, o meu querido, coisas melhores que a vida.

— O que coisas são essas? 

— Coisas piores que a morte como a sentença infinita que você leva sobre a alma. Ou coisas melhores que a mesma vida como a bela confissão de uma carícia.

— Em primeiro lugar, o meu céu, eu não levo em mim nenhuma sentença, pelo menos não que eu saiba. E em segundo lugar, não sei se reparaste, a Ruth, mas uma carícia nunca pode ser melhor que a vida, porque para uma carícia deve existir precisamente isso, ou seja, vida.

— Eu sei que não é fácil de entender o que digo entre a mística da minha alma e as trevas da vida, o meu amado Adrián. Mas olhe pelo lado bom: aqui, neste lugar, o amor é infinito e o esquecimento não tende a durar.

A Ruth, após daquela breve conversa, ficou em silêncio. Em seguida, ela pegou a minha mão e me levou para um dos quartos de Perfumes Harém. Um quarto que permanecia vazio e em cuja entrada havia um misterioso número 1, un número 1 de horas incertas e paixões sucessivas e incontáveis. Ao entrar lá, eu assumi que assim seriam todos os quartos naquele frio e sombrio lugar do inferno terrenal e o amor. Mais tarde eu iria aprender que não, que esse era o único quarto em todo Perfumes de Harém que não tinha uma cama. Embora, de fato, completamente vazio não estava aquele quarto de essência libidinosa. Havia latas, tubos de tinta têmpera, terebintina, pincéis, aquarelas e outros objetos da pintura. Ao vê-los, uma faísca estranha cruzou o meu ser e ali, sem mais delongas, eu mergulhei-me em esse óleo suave e saboroso que é o corpo da bela e mística Ruth. Enquanto isso fazia, eu comecei a dizer-lhe a ela, a minha linda e sensual amante, algumas palavras concisas de amor que, francamente, não me lembro o que estes possam ser. Ela, naturalmente, ouviu com atenção enquanto me retirava um tanto ansiosa as minhas roupas. Quando os dois estivemos completamente nus, ela lançou uma lata de tinta verde esmeralda em cima de nós. Então, eu peguei, pela minha parte, uma lata de tinta azul hortência e lancei-a em direção  ao tecto do quarto. A pintura caiu um momento depois em forma drastica, como a sugestiva e indizível chuva do inapreensível, e salpicando tudo ao redor. As enormes gotas iam e vinham por todas partes e da maneira mais aleatória que alguém possa imaginar. Sim, elas iam e vinham com certa luxúria sobre a gravidade desenfreada dos humores do sexo. Do sexo desenfreado e docemente compartilhado.

E assim, abraçados, ambos estivemos experimentando a paixão enquanto demos voltas entre a pintura e entre as mais humedecidas realidades do prazer. Os meus cinco sentidos estavam concentrados nessa árdua e agradável tarefa do amor. Um amor que durou um tempo infinito, um tempo incomensurável, porque cada segundo eu me colocava de pé para começar algum quadro com os materiais que foram arranjados pela Ruth para essa amorosa e artística finalidade. Sim, ela tinha que ser a pessoa que planeou todo para que issos materiais estivessem lá, embora nesse momento de amores intensos eu não pensei se realmente tinha sido ela. Algo muito estranho, porque se em verdade foi ela, então, as estrelas mais inesperadas ​​do desconhecido, devem conhecer as seguintes perguntas: Como esta mulher misteriosa veio a conhecer tão cedo que a pintura era o meu principal passatempo? Quem poderia lhe dar a ela essa informação sem eu saber? Por que tanto mistério de doce intemporalidade no centro dos seus olhos de fogo? Umas perguntas sobre um assunto tão estranho e enigmático como a mesma Ruth. Umas perguntas cujas possíveis respostas não quis pensar muito, claro. nesse momento, no quarto n º 1 de Perfumes de Harém, tudo o que eu pensava era que aquelas pinturas e aquelos óleos estvam lá, na verdade, por alguma coincidência estranha e fortuita. De qualquer forma, qualquer que seja a razão pela qual aquelas pinturas e aquelos materiais estavam lá, e além todos os sentimentos mais imediatos e mais palpáveis, aquela noite eu comecei alguns quadros, embora, para ser honesto, nunca teve muito progresso neles. Mas bom, lá, nesse sombrio lugar, estava eu​​, aproveitando a paixão, observando uma esmagadora obscuridade de sangue tonalidade âmbar, âmbar profundo. Sim, ali estava eu, realizando aquela tarefa da minha vocação de pintor, que não poderia ser feita, mais que dessa forma sinestésica e sensual que me permitiu mergulhar livremente nas cores e nos sabores do prazer.

 — Eu sempre tive o dever de encontrar a sua alma no meio desta vida, o meu querido.

 — Diga-me a Ruth, se isso é talvez uma expressão de amor.

 — Não, claro que não é.

 — O que é então?

 — Só dorme. Amanhã será um longo dia, o meu pequeno.

 — Por quê? Por quê será um longo dia?

— Você vai descobrir quem é em realidade.

— Quem sou?

— O meu demônio ... O meu anjo da guarda ... Quem tem sangue e morte nas suas mãos.

Aquela noite de intensidades amorosas e sombrias, não consegui dormir nem por um segundo. O sono não era algo fácil dentro da minha alma. De fato, acordei à meia-noite e encontrei-me pensando, de repente, na bela Celeste. Por que ela estaria lá, me perguntei de um momento a outro. Sim, lá, em um lugar tão atroz, escuro e deprimente como o Perfumes de Harém. Nesse lugar de pesadelos intermináveis, desejos latentes e opacidades excessivas que comprometem as fibras mais essenciais de qualquer alma humana.


Um após outro, ao Perfumes de Harém, chegam os clientes para satisfazer os seus desejos mais mesquinhos e conspícuos. Enquanto isso, ela, a linda Celeste, busca na sua memória  fugitivos e melancólicos resíduos daquele dia fatídico, de uma noite escura e nebulosa, em que ela chegou àquele desconhecido país, totalmente cheia de sonhos e com o anseio imperioso e absoluto de olhar uma vida melhor. Não toda vida é a morte, mas nas melancolias todas as mortes são a vida. Por essa razão, a cor da tragédia pode ser extremamente intensa. Sim, a cor da tragédia pode ser algo realmente devastador, doloroso e fulminante. Algo verdadeiramente digno de um pesadelo que contamina pouco a pouco o coração. Ela soube isso de um momento a outro. Ela soube isso quando foi confinada, em contra da sua vontade e com uma enxurrada de lágrimas caindo sobre a sua inocência maltratada, em um quarto escuro e infinitamente frio. Um quarto onde de vez em quando (enquanto a noite transcorre), ela aparta a sua visão de daqueles homens, homens de múltiplas classes e ambições que chegam, viris e com uma sede implacável  de mulher. Ela também aparta a sua visão dos seus sexos eretos e impassíveis deles para meljor observar uma lua cheia de beleza inédita pela janela. A beleza de um doloroso e profundíssimo silêncio.


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