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Capítulo 1

A empresa Avelar entrou em falência, no caso, a empresa do papai entrou em falência.

Onde ele mais batalhou, onde passou seus últimos meses de vida tentando fazer de tudo para reerguer, antes que alguém percebesse que não estávamos mais no patamar de antes.

Mamãe não sabia mais o que fazer para conseguir tomar conta de tudo, fiquei ao seu lado em todos os momentos para que ela não se sentisse sobrecarregada.

-Não podemos fazer mais nada Serena!

-Não podemos pensar assim mamãe, as coisas podem ser organizadas, se tirarmos alguns custos as coisas podem melhorar.

-Tirar de onde? Fizemos tudo que estava ao alcance.

Mamãe se virou para a grande janela a sua frente ficando em silêncio e foi assim por minutos, longos minutos que pareciam um tenebroso castigo, sinto que compartilhávamos o mesmo sentido.

Um sentimento de culpa, de que deveria ter feito algo a mais, sentimento de repressão, como papai tomou conta da empresa durante anos e só após alguns meses da sua ida as coisas começaram a desandar.

-O que vamos fazer? -Perguntei, quebrando o silêncio na sala.

-Vamos fechar e vender todas as ações!

-Mamãe?!

-Essa é a única opção Serena, você tem algo em mente por acaso?

Fora da sala de reunião as fofocas sobre a falência da empresa já aconteciam, não podíamos mentir dizendo que tudo estava bem, tudo sob controle, quando tudo que tínhamos era apenas o sonho de não deixar a empresa quebrar por falência.

-Não podemos pensar por um tempo? Podemos encontrar uma solução.

-Já pensamos demais, a decisão já está tomada.

Quando mamãe colocava algo em mente, nada fazia tirar.

Os olhares que recebi de dúvida, medo e angústia assim que saí da sala foram muitos, parece que o tempo parou e todos ficaram em silêncio me encarando.

Fui até minha sala fechei as persianas encarando pela última vez a paisagem que eu mais admirei durantes anos enquanto papai trabalhava, peguei minha bolsa junto do celular e sai de lá indo em direção ao elevador.

Como íamos sustentar uma família? Meus irmãos? O dinheiro guardado não iria dar por muito tempo. Todas essas dúvidas ecoavam pela minha mente a todo momento, o pior, como íamos contar que chegamos nesse nível para meus irmãos?
Vivendo por luxos e riqueza para a escassez e autocontrole para não faltar nada.

Marina, minha irmã mais velha não iria conseguir me ajudar, já tem sua família, seus objetivos e demandas, não posso simplesmente pedir a sua ajuda para algo assim do nada.

Mesmo sendo apenas a irmã do meio o peso de sempre estar ajudando mamãe, meus irmãos e tomando conta das coisas é carregado em meus ombros.

-Marina?

-Olá Serena, como estão indo as coisas? – Soltei um suspiro longo.

-Estão caminhando irmã, caminhando devagar...

-Sabe que já sei da decisão da mamãe, certo?

-Você acha certo essa decisão? Deixar as coisas assim? Papai trabalhou tanto para no final as coisas serem perdidas assim! – Soquei o volante em minha frente, minha mão segurando o celular suava friamente.

-Serena! Não foi perdido, você e mamãe trabalharam o bastante para fazer tudo se reerguer, mas as coisas não deram certo, você não pode ficar se culpando.

-Não estou me culpando!

-Está sim, você sempre cuidou de todos Serena, cuidou tanto dos outros que esqueci de si mesma.

-Esse não é o ponto, Marina...

-Esse é o ponto sim, Serena! Cuidar dos outros e esquecer de si é um grande problema! Veja isso como uma mudança, o universo está dando uma chance de recomeçar no que gosta. -Marina tocou em uma ferida.

-O universo não dá chances. -Digo rindo.

-Como sabe? Qual foi a última vez que foi correr? Fazer algo que sempre gostou? Viver presa dentro de uma sala vendo números não te dá a sensação de liberdade!

-Quem disse que eu quero essa sensação?

-Isso não é querer, isso é necessidade! Para de viver pelos outros Serena, coloca isso na sua cabeça! Isaac já tem idade suficiente para tomar decisões na vida é saber que dinheiro de mamãe não vai estar sempre a favor dele e a mamãe...ela está ciente de que precisa de paz.

-Obrigada pelo sermão...

-De nada, mas agora é sério Serena, veja isso como uma segunda chance não é como se estivéssemos pobres.

-Mas quebramos Marina.
-Mas podemos nos reerguer para trabalhar em outra coisa, venda nossas partes da empresa e conseguimos um valor mensal todo mês, você sabe que temos um plano emergencial que papai fez para a gente.

-Tudo bem! Já entendi o recado.

-Aproveita a vida maninha, você é ainda tão nova, eu te amo!

-Também te amo.

Assim que desliguei o celular fiquei encarando a tela de bloqueio por alguns segundos, fato, as coisas não seriam mais como antes, mas o que iria mudar?

Talvez ouvir a Marina fosse uma boa ideia, sempre me doei aos outros, quando papai morreu, quem tomou conta da empresa nos primeiros meses foi eu, pois mamãe ficou de cama chegando a ficar até doente.

Não sei como ela sobreviveu.

Chegando em casa Isaac está na escola, o almoço não estava posto até porque não era para ter ninguém em casa.

-Dona Serena, pensei que não iria chegar tão cedo.

-Não estava previsto mesmo Elisa.

-Vou servir o almoço.

-Não precisa, já estou de saída.

Elisa é o meu braço direito em casa, tudo que tivemos de festa, confraternização, compras e o que puder imaginar fizemos juntas.

Por que não fazer o que Marina disse? Quando criança gostava tanto de correr, participei de muitas competições, ganhei muitas medalhas poderia voltar com esse hobbie.

Subindo para o quarto deixei a bolsa na cama e fui em direção ao closet, peguei minha roupa de corrida e deixei sobre a cama, troquei de roupa e fui em direção ao banheiro prendendo o cabelo em um rabo de cavalo.

Perto de casa tem uma praça onde antigamente eu passeava com o meu cachorro Tob, depois que ele faleceu eu não tive o costume de continuar indo a essa praça, mas agora seria um bom motivo para voltar.

O vento gelado batendo em meu rosto me gerou calafrios, o sol não está suficiente para esquentar e a sombra está muito gelada para ficar nela.

Aqueci por alguns minutos e comecei a correr, meu corpo se desacostumou com isso, faz tanto tempo que eu não corria que a cada pisada mais forte no chão eu sentia os nervos da perna contraindo.

Mas aguentei dando duas voltas em toda a praça, no final da segunda volta meu rosto estava vermelho como um pimentão, a respiração ofegante e imensa vontade de beber água.

-Que merda! – Como pude esquecer minha garrafa?

O caminho de volta para casa foi doloroso e satisfatório ao mesmo tempo, minha respiração ainda estava ofegante tentando voltar ao normal.

Chegando em casa dei de cara com mamãe conversando ao telefone na sala, ela me encarou por alguns de cima para baixo e desligou o telefone.

-Foi correr? – Assenti com a cabeça, ela deu um sorriso de canto, como se ficasse feliz por saber que voltei a fazer algo que eu goste. – Precisamos conversar.

-Conversei com a Marina hoje mamãe e você está certa, não podemos ficar nos prendendo no passado.

-Antes de qualquer coisa, senta aqui filha.

Mamãe bateu a mão suavemente ao seu lado no sofá, seu olhar tentava me reconfortar sem falar nada.

-Vamos dar um jeito, sabe disso. – Digo com firmeza.

-Sei disso, mas não mudei de ideias, vamos fechar nossa empresa principal e ficar com uma secundária...não vamos ter o mesmo patrimônio de antes, mas vamos conseguir manter as coisas do jeito que estão sem que precisemos nos afundar em dívidas.

-Essa vai ser nossa salvação?

-Por enquanto sim, para o encerramento do Grupo Avelar vamos organizar um evento para encerrarmos esse capítulo. – Encarei mamãe com indignação, o dinheiro que nos resta e ela quer fazer uma festa?

-Uma festa mamãe? Certeza disso? Estamos a falência.

-Vai ter investidores nessa festa filha, podemos vender todas nossas ações o nome Avelar ainda vai estar em jogo, mas não com o assunto de falência ao lado. -

Em certos pontos ela está correta, vamos poder vender o que nos resta no intuito de tentar sair por cima mesmo com todas as picuinhas de falência.

-Tudo bem! Posso organizar isso.

-Precisamos de isso para sábado.

-Hoje é quarta mamãe! Não dá tempo.

-Eu confio em você filha além disso já temos um confirmado para o evento. – Mamãe disse enquanto se levantava indo em direção da cozinha.

-Quem? – Perguntei curiosa.

Ela pausou por um segundo, apenas um segundo, mas eu notei essa hesitação.

-Caio Meirelles.

O nome não me disse nada naquele momento, mas sinto que isso tem mais coisas a fundo.

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