Capítulo 2
Na manhã seguinte mamãe já estava de pé mais cedo que o normal, na mesa do café encarava Isaac com um sorriso no rosto.
-Bom dia filha, dormiu bem?
Dormir tranquilamente é uma palavra muito forte, as reviradas na cama durante a madrugada sonhando com a quebra da empresa enquanto esse evento precisa ser organizando em tão pouco tempo está acabando com toda minha sanidade.
-Tudo ótima, mamãe. – Beijei Isaac na testa e me sentei ao seu lado.
-Serena, sabia que sábado vou jogar de atacante? – Issac perguntou, com a boca cheia de pão.
Mais um evento para sábado. Vai ser um final de semana de muitas emoções!
-Sabia que mocinhos educados não falam de boca cheia?
Issac mastigou rápido, engolindo quase sem paciência e respirou fundo, como se estivesse prestes a anunciar algo muito sério.
-Pronto! Posso falar agora?
-Agora pode.
-Eu vou jogar de atacante no sábado. O professor falou que eu corro rápido, só que eu preciso mirar melhor, porque no último treino eu chutei a bola meio torta.
-Meio torta? – Indagou mamãe segurando a risada.
-Está bom, muito torta. – Ele admitiu, pegando o copo de suco. -Mas não foi culpa minha, o gramado estava estranho.
Segurei o riso.
-Claro, o gramado.
-O vento também atrapalhou.
-Dentro da escola tem vento? – Perguntei a ele, ele pensou por segundos, olhando para o próprio prato com o restinho dos farelos de pão.
-Na minha imaginação tinha. -Encarei minha mãe rindo baixinho, mexendo o café com a colher. -Vocês vão no meu jogo, não é?
-Sábado? -Repeti, tentando ganhar mais tempo.
-Com certeza iremos filho.
-Serena sempre fala que vai tentar, mas dessa vez eu queria que você fosse de verdade.
Baixei os olhos para a xícara. Tenho o evento, os convidados, a empresa, parece que isso tudo vai desabar sobre minha cabeça.
Mas, ao meu lado, meu irmão esperando uma resposta minha.
-Eu vou tentar fazer dar certo. -Digo mais baixo.
Isaac estreitou os olhos, desconfiado.
-Tentar ou ir? – Respirei fundo.
-Ir. - O sorriso que surgiu em seu rosto foi imediato.
-Então vou fazer um gol para você!
-Só um?
-Dois, se o vento não atrapalhar.
Isaac terminou seu café e mamãe o levou para a escola, subi para o meu quarto para pegar minha bolsa e a chave do carro.
Ao caminho para garagem liguei para a assessoria avisando sobre a mudança de horário. Deixei a bolsa no banco do passageiro e liguei o som, enquanto esperava Patrícia atender a ligação.
-Serena, você tem certeza disso? O evento estava pensando para a tarde. Algo mais leve, como um brunch. Se passarmos para a noite, muda tudo.
Parei no sinal vermelho e soltei o ar devagar.
-Então vamos mudar tudo.
Houve um silêncio curto, mas suficiente para eu imaginar Patrícia fechando os olhos do outro lado da linha.
-Tudo como?
-Não quero mais um brunch. Quero uma gala.
-Uma gala? Em três dias?
Apertei os dedos contra o volante. Três dias parecia pouco até para respirar, mas eu já tinha passado tempo demais deixando coisas importantes para depois.
-Em três dias. – Digo com firmeza na voz.
-Posso perguntar o motivo?
Olhei para o sinal, ainda vermelho, enquanto a imagem do meu irmão a mesa do café voltava para minha cabeça. O sorriso dele. A promessa do gol.
A pergunta simples que tinha pesado mais do que qualquer reunião na empresa.
Vou mesmo fazer isso? O custo vai ser maior, o investimento de um evento de gala é o dobro de um brunch.
Engoli seco.
-Tenho um compromisso antes.
-Com algum investidor?
O sinal abriu. Pisei no acelerador, mantendo os olhos na rua.
-Não, com alguém mais importante.
Patrícia ficou calada por alguns segundos.
-Certo, vou começar as alterações. Mas preciso te avisar uma coisa.
-O que?
-A equipe do senhor Meirelles entrou em contato ontem à noite após nossa conversa.
-Equipe de quem? – Reconheci o sobrenome, mas não me conformei de quem poderia ser.
-Equipe do Caio Meirelles.
Meu corpo ficou rígido antes mesmo que eu percebesse, o mesmo homem que mamãe hesitou a falar ontem.
-Para que?
-Perguntando se havia possibilidade de o evento acontecer a noite. -Suspirei fundo.
-A pedidos da equipe Meirelles, o evento vai acontecer a noite. Mais tarde conversamos sobre a refeição Patrícia.
-Vou avisá-los então.
Por um segundo, tive a estranha impressão de que essa decisão não tinha sido só minha. A rua continuou a mesma diante de mim, os carros, os prédios, o céu claro demais para a sensação esquisita que se abriu no meu peito.
Chegando à empresa todos já me encaravam, esperando uma resposta, e eu estava me preparando para passar tudo que eles precisam saber.
Mamãe não iria estar comigo para resolver isso, tinha outros problemas mais importantes.
Entrei na minha sala abrindo as persianas pela última vez. Minha sala sempre teve a melhor vista do Grupo Avelar. As janelas enormes abriam a cidade diante de mim, ainda coberta por uma luz fria de manhã, com o céu pálido e os prédios parecendo mais silenciosos do que de costume.
Lá embaixo, o trânsito segue, as pessoas atravessam ruas, os problemas continuam existindo como se nada estivesse prestes a mudar. Eu gosto dessa vista.
Gosto da sensação de estar aqui, acima do movimento, observando tudo de longe por alguns segundos antes que o mundo exija alguma coisa de mim. Mas hoje, com o computador ligado, papéis espalhados pela mesa e uma lista impossível de tarefas esperando minha atenção, a paisagem parece bonita demais para combinar com o peso que carrego.
-Bom! Vamos ao foco.
Comecei a procurar por espaços disponíveis para sábado. Preciso de um lugar elegante, discreto e caro o bastante para que ninguém ouse associar aquela noite a falência.
-Fácil. – Murmuro, apoiando os dedos nas têmporas. – Só preciso organizar uma gala em três dias, salvar o que resta da imagem da minha família e fingir que está tudo sob controle.
Solto uma risada fraca, sem nenhum humor.
A mudança de brunch para gala deixa tudo mais difícil, mas também mais necessário. Um brunch parece mais leve demais para o que mamãe quer transmitir. Uma gala, por outro lado, tem peso. Tem aparência. Tem luz baixa, taças cheias, vestidos longos e conversas ditas pela metade.
Se o grupo Avelar vai fechar as portas, pelo menos precisa sair de cena sem parecer que foi empurrado.
Abro a primeira opção de espaço e analiso as fotos com atenção. Lustres altos, salão amplo, vista bonita, mesas bem distribuídas.
-Bonito demais para estar disponível. – Digo para mim mesma.
Desço a página até encontrar a agenda, indisponível.
-Claro.
Fecho a aba e abro outra. Depois outra. Depois mais uma. Em cada lugar, falta alguma coisa. Um é pequeno demais. Outro é exagerado demais. Um terceiro parece perfeito, até perceber que fica longe o suficiente para irritar metade dos convidados.
-Vocês não poderiam simplesmente aceitar uma reunião com café e biscoito? – Resmungo, encarando a lista de investidores na tela.
Meu olhar foge para a janela por alguns segundos, mas obrigo minha atenção a voltar para o computador. Não tenho tempo para sentir nada agora. Sentir é um luxo que eu posso tentar ter depois de sábado.
Quando finalmente encontro um espaço aceitável, anoto o telefone em um papel e abro outra aba para procurar vestidos. A palavra "gala" piscando na minha cabeça é como uma sentença.
-Ótimo. Agora falta a parte em que eu finjo saber escolher um vestido para uma noite dessas.
Passo por modelos longos, brilhantes, justos, caros demais e desconfortáveis só de olhar. Nenhum parece comigo. Nenhum parece feito de alguém que preferia estar usando calça social, camisa bem passada e uma agenda organizada.
-Eu sabia que deveria ter comprado aquele vestido preto que Marina insistiu. – Murmuro, rolando a página. -Mas não, Serena, você disse que vestido elegante só serve para pegar poeira.
Fechei a aba dos vestidos com mais força do que precisava e, sem pensar muito, digitei o nome na barra de pesquisa.
Caio Meirelles.
Os resultados apareceram rápido demais. Matérias de negócios, aquisições, expansões. Um homem construído para ser visto de longe e encontrado por ninguém.
Cliquei na primeira foto disponível.
Errei feio ao achar que saberia o que esperar.
A imagem carregou na tela com uma nitidez quase incômoda. Caio Meirelles estava em pé diante de uma parede escura, vestindo um terno impecável, a expressão séria demais para alguém que deveria estar apenas posando para uma matéria de negócios. Não havia sorriso. Não havia esforço para parecer agradável.
Ele parecia o tipo de homem que não precisava convencer ninguém de nada, porque o mundo já tinha aprendido a escutá-los antes mesmo que abrisse a boca.
-Claro! – Murmurei, apoiando o cotovelo na mesa. -Bonito, rico e com cara de quem arruinaria o dia de alguém por esporte.
Rolei a página devagar, tentando ignorar a sensação estranha que aquela foto causava. Não era admiração. Pelo menos, não queria que fosse. Era desconforto. Como se aqueles olhos, mesmo presos dentro da tela, soubessem mais do que deveriam.
Abri a primeira matéria.
"Grupo Meirelles expande atuação no setor financeiro após aquisição bilionária."
-Aquisição bilionária. -Repeti baixo. – Porque comprar empresas deve ser um hobby completamente normal.
Continuei descendo. Outra notícia. Outra foto. Outro título mencionando poder, expansão, controle. Caio aparecia sempre igual: distante, elegante, inalcançável. Nenhuma entrevista pessoal. Nenhuma curiosidade inútil.
Nenhuma foto em festa, praia, restaurante ou qualquer lugar que provasse que ele existia fora de salas fechadas e contratos assinados.
Quanto mais eu procurava, menos parecia encontrar.
-Quem é você? -Perguntei para a tela... como se ela pudesse me responder.
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