Capítulo 3
Sábado – Dia do Evento
-Vira um pouco para eu ver as costas. -Marina pediu, sentada na ponta da cama como se aquela fosse a coisa mais importante do mundo naquele momento.
Soltei o ar devagar e vire, encarando meu reflexo no espelho do closet. O vestido era bonito. Bonito demais para uma noite que, no fundo, não tinha nada de bonita.
O tecido escuro caía pelo meu corpo de um jeito elegante, sem exageros, sem brilho demais, sem pedir atenção. Exatamente como eu queria.
-Está perfeito! -Mamãe disse, parada perto da porta.
Pelo espelho, encontrei o olhar dela. Havia orgulho ali, mas também uma tristeza que ela tentava esconder do mesmo jeito que eu escondia a minha.
-Perfeito para fingir que não estamos encerrando uma empresa. -Murmurei.
Marina fez uma careta.
-Serena.
-O que? Estou sendo realista.
-Você está sendo cruel com você mesma. -Ela respondeu, se levantando para ajeitar uma pequena dobra na lateral do vestido. -Tem diferença.
Mamãe se aproximou devagar e tocou meu ombro, com cuidado, como se eu pudesse quebrar se ela apertasse demais.
-Seu pai teria achado você linda.
A frase caiu no meio do closet e, por alguns segundos, ninguém disse nada.
Engoli seco, olhando para o vestido de novo. Eu não queria pensar em papai naquela noite. Não queria imaginar o que ele diria, o que sentiria, se ficaria decepcionado ou orgulhoso. Pensar nele fazia tudo parecer mais real.
-Eu não estou usando isso para ficar linda. – Respondi baixo. -Estou usando para que ninguém veja a rachadura.
Marina me olhou pelo espelho.
-Então funciona. Porque, olhando daqui ninguém diria que você está prestes a carregar uma família inteira nas costas.
Soltei uma risada fraca.
-Que ótimo. A ilusão está convincente.
Mamãe respirou fundo, passando a mão pelo tecido do meu vestido.
-Não precisa ser ilusão a noite inteira, Serena.
Não respondi. Porque, para mim, precisava sim.
Depois de alguns ajustes, tirei o vestido com cuidado e voltei para a roupa mais simples. Calça, blusa leve, sapato confortável. A Serena da gala ficou pendurada no cabide, esperando a hora de existir. Antes dela, ainda havia uma promessa.
Isaac estava esperando na sala com a chuteira na mão e a ansiedade estampada no rosto.
-Você vai mesmo? -Perguntou ele assim que me viu.
A pergunta me acertou mais do que deveria.
-Eu disse que ia.
-Adultos dizem um monte de coisa.
Marina soltou uma risada atrás de mim, e mamãe tentou disfarçar o sorriso. Agachei na frente dele e peguei a chuteira de sua mão.
-Então hoje eu vou provar que sou uma adulta diferente.
Ele estreitou os olhos, desconfiado.
-Você vai gritar quando eu pegar a bola?
-Depende. Você quer que eu grite?
-Quero, mas não muito alto. Senão meus amigos vão rir.
-Entendi, torcida elegante.
-Isso, igual gente rica.
Olhei para mamãe e Marina antes de rir. Por alguns segundos, a casa pareceu menos pesada.
O campo da escola tava cheio quando chegamos. Pais conversavam perto da grade, crianças corriam de um lado para o outro e Isaac parecia ter crescido uns centímetros só por estar usando o uniforme do time.
Ele acenou para mim antes de entrar em campo, e eu acenei de volta, tentando ignorar o celular vibrando dentro da bolsa.
Não agora.
Durante os primeiros minutos, eu me forcei a esquecer a gala, os investidores, o Grupo Avelar e o nome Caio Meirelles. Havia apenas Isaac correndo atrás da bola com uma seriedade enorme, como se aquele jogo decidisse o destino do mundo.
-Vai, Isaac! – Gritei, esquecendo completamente a parte da torcida elegante.
Ele olhou rápido na minha direção, sorrindo, e quase tropeçou na própria chuteira.
-Serena! -Mamãe repreendeu, mas estava rindo.
-Ele pediu para eu gritar.
-Não para derrubar ele.
No segundo tempo, Isaac recebeu a bola perto da área. Correu torto, chutou mais torto ainda, e por um milagre que talvez só crianças consigam provocar, a bola passou entre duas pernas antes de entrar no gol.
Por um segundo, o campo inteiro pareceu parar.
Depois Isaac saiu correndo com os braços abertos.
-Eu falei! -Ele gritou, apontando para mim. -Eu falei que ia fazer!
Meu peito apertou de um jeito inesperado. Bati palmas, ri e senti os olhos arderem, o que era ridículo, porque era só um jogo infantil. Só um gol. Só uma manhã de sábado.
Mas talvez fosse exatamente por isso.
Porque, por alguns minutos, alguma coisa tinha dado certo.
Quando o jogo acabou, Isaac veio correndo até mim, suado, vermelho e feliz.
-Você viu?
-Vi.
-Viu mesmo ou viu mexendo no celular?
Peguei o rosto dele entre as mãos e sorri.
-Vi mesmo.
Ele sorriu como se aquilo fosse o suficiente para salvar o dia inteiro. E talvez tivesse sido.
Até eu olhar o relógio.
A manhã estava acabando. O jogo também e minha promessa tinha sido cumprida.
O sorriso do Isaac ainda estava preso na minha cabeça quando entrei no carro. Ele tinha feito o gol. Eu tinha cumprido minha promessa. Por algumas horas, aquilo pareceu suficiente para me convencer de que nem tudo estava perdido.
A Serena que gritava na beira do campo precisava ficar para trás. Agora era a vez da Serena Avelar, a filha que sorriria para investidores, esconderia rachaduras atrás de um vestido azul-marinho e transformaria o encerramento de uma empresa em uma gala impecável.
Apertei o volante por alguns segundos antes de ligar o carro.
-Certo. -Murmurei para mim mesma.
Chegando em casa pouco depois da uma da tarde. Isaac ainda falava sobre o gol como se tivesse vencido uma final de campeonato, repetindo cada detalhe com a mesma empolgação da primeira vez. Mamãe fingia não estar cansada, Marina ria das versões cada vez mais dramática da história, e eu tentava me apegar aquela sensação simples de que, por algumas horas, tínhamos sido apenas uma família.
Nada de empresa.
Nada de investidores.
Nada de sobrenome pesando mais do que deveriam.
Elisa já havia deixado o almoço encaminhado, e pela primeira vez em dias a mesa parecia menos silenciosa. Isaac gesticulava com o garfo na mão, explicando como tinha enganado o goleiro, embora eu tivesse quase certeza de que nem ele sabia como a bola tinha entrado.
-Foi estratégia. -Ele garantiu, sério.
-Estratégia ou sorte? – Marina perguntou.
-Estratégia com um pouco de sorte.
Eu ri, levando a copo de água a boca.
Foi nesse momento que meu celular vibrou sobre a mesa. Olhei para a tela e senti a leveza escorrer para longe antes mesmo de ler a mensagem.
Patrícia.
"Serena, preciso confirmar uma solicitação da equipe Meirelles. Eles pediram uma sala reservada no espaço. Disseram que o senhor Meirelles pode precisar conversar em particular antes do evento começar."
Li a mensagem uma vez. Depois outra.
-Está tudo bem? -Mamãe perguntou.
Bloqueei a tela rápido demais.
-Está.
Marina estreitou os olhos, mas não disse nada. Mamãe, por outro lado, ficou imóvel por um segundo. Pequeno demais para Isaac perceber. Grande demais para mim.
Apoiei o celular ao lado do prato e tentei voltar para a conversa, mas já era tarde. O nome dele tinha entrado na mesa sem ser conversado.
Caio Meirelles.
Mesmo instante, mesmo ausente, parecia ocupar espaço demais.
-Serena? -Isaac chamou, franzindo a testa. -Você ouviu a parte eu quase caí?
Forcei um sorriso e voltei meus olhos para ele.
-Ouvi. Foi uma estratégia também?
Ele abriu um sorriso enorme.
-Foi equilíbrio secreto.
Ri baixo, mas minha atenção já estava dividida.
Enquanto Isaac continuava falando, meus dedos tocaram o celular de novo, como se a mensagem pudesse ter mudado sozinha. Não tinha.
Uma sala reservada.
Uma conversa particular.
Um homem que eu ainda nem conhecia e que, de alguma forma, já parecia saber exatamente onde queria estar.
A tarde passou sem passar.
Tentei responder e-mails, confirmar fornecedores, revisar a lista de convidados e fingir que a solicitação da equipe Meirelles era apenas mais um detalhe entre tantos. Mas não era. Uma mesa fora do lugar eu corrigia, um atraso no buffet eu resolvia. Uma iluminação errada eu ajustava.
Caio Meirelles pedindo uma sala reservada antes mesmo de chegar era outra coisa.
Era presença, mesmo sem estar ali.
Quando o relógio se aproximava das cinco, eu já estava pronta para fechar o notebook e subir para o quarto quando Elisa apareceu na porta da sala com uma caixa pequena as mãos.
-Serena?
Levantei os olhos da tela.
-Sim?
-Acabaram de entregar isso para a senhorita. -Franzi a testa.
-Para mim?
Ela confirmou com a cabeça e entrou, deixando a caixa sobre a mesa de centro. Era pequena, retangular, envolvida por um papel azul-escuro tão profundo que quase parecia preto. Não havia laço exagerado, flor, cartão colorido ou qualquer coisa que tornasse aquilo delicado.
Só meu nome escrito em uma letra firme.
Serena Avelar.
Por alguns segundo, apenas encarei a caixa.
-Quem entregou?
-Um motorista, disse que era urgente.
Como assim urgente?
Toquei a borda do papel com a ponta dos dedos, sentindo um frio estranho subir pela minha mão. Não fazia sentido, eu não tinha comprado nada, não tinha perdido nada. E, definitivamente, não esperava receber presentes no dia em que precisava sorrir para a própria ruína.
Abri a embalagem devagar.
Dentro, sobre um tecido claro, havia um par de brincos. Pedras azul-escuras, elegantes, discretas e frias, do mesmo tom do vestido que estava pendurado no meu closet desde mais cedo.
Meu corpo ficou imóvel.
Por um instante, tudo ao redor pareceu perder o som.
-Serena? -Mamãe chamou da porta.
Não respondi.
Peguei o pequeno cartão preso a lateral da caixa e senti meus dedos apertarem o papel antes mesmo de ler.
Havia apenas uma frase.
"Algumas cores não foram feitas para passar despercebidas".
Nenhuma assinatura. Não precisava.
Olhei para os brincos outra vez, depois para a escada que levava ao meu quarto, onde o vestido azul-marinho me esperava.
Ninguém fora daquela casa tinha visto aquele vestido.
Ninguém deveria saber. Mas Caio Meirelles sabia.
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