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Capítulo 4

Os brincos pesavam menos do que deveriam.

Encarei meu reflexo por alguns segundos, tentando ignorar o brilho azul-escuro preso as minhas orelhas. O vestido estava no lugar. O cabelo, a maquiagem, a postura, tudo exatamente como precisava estar.

Eu parecia pronta, e talvez essa fosse a parte mais perigosa, porque naquela noite parecer pronta era a única coisa que importava.

O vestido azul-marinho caía pelo meu corpo com uma elegância silenciosa. O tecido acetinado refletia a lua do quarto em ondas discretas, marcando a cintura, descendo pela saia longa e deixando a fenda lateral aparecer quando eu me movia. Era bonito. Impecável, exatamente o tipo de vestido que eu teria evitado comprar se a vida ainda me permitisse evitar certas coisas.

Passei a ponta dos dedos pelo tecido, respirando fundo.

Parecia estar pronta.

O cabelo caía sobre um dos ombros em ondas controladas e minha expressão era firme o suficiente para convencer qualquer pessoa que não me conhecesse bem. Talvez até algumas que conheciam.

O problema era esse.

Naquela noite, parecer bem era quase mais importante do que estar.

Toquei um dos brincos sem perceber e me arrependi no mesmo instante. O metal frio contra minha pele me lembrou da caixa, do cartão, da frase curta demais para ser inocente.

"Algumas cores não foram feitas para passar despercebidas."

Nenhuma assinatura, nenhuma explicação e nenhuma necessidade de existir.

Apertei os lábios, encarando meu reflexo. Se Caio Meirelles tinha enviado aquilo para me deixar desconfortável, tinha conseguido. Mas se esperava que eu deixasse os brincos dentro da caixa, como se a simples existência deles fosse suficiente para me intimidar, então talvez ainda soubesse menos sobre mim do que achava.

-Você vai ficar aí parada encarando o espelho até o evento acabar?

A voz de Marina veio da porta do closet. Pelo reflexo, vi minha irmã encostada no batente, os braços cruzados e uma expressão que tentava ser leve, mas não conseguia esconder a preocupação.

-Estou pensando.

-Péssimo hábito antes de eventos importante.

Soltei uma risada baixa, sem humor.

-Vou tentar trocar por negação.

-Funciona melhor com champanhe.

Virei um pouco para ela, e Marina me olhou de cima a baixo. Por alguns segundos, não disse nada. Isso, vindo dela, nunca era pouco.

-Está linda. -Ela falou por fim.

Baixei os olhos para o vestido.

-Não era exatamente esse o objetivo.

-Eu sei. -Ela entrou no closet devagar. -Mas talvez ajude.

-Ajudar a que?

Marina parou atrás de mim e ajeitou uma mecha do meu cabelo com cuidado.

-A lembrar que você não está indo pedir permissão para continuar existindo, Serena. Está indo mostrar que ainda está aqui.

Meu peito apertou um pouco, mas eu não respondi. Havia frases que eu não podia aceitar em voz alta sem correr o risco de desmanchar.

Mamãe apareceu logo depois, já pronta, com uma elegância cansada nos olhos. Ela parou ao lado de Marina e me olhou pelo espelho. Por um instante, as três ficamos ali, em silencio, cercadas por vestidos, luzes suaves e verdade que nenhuma de nós queria dizer.

-Seu pai teria ficado orgulhoso. -Mamãe disse.

Engoli seco.

-Hoje não, mamãe.

Ela pareceu entender antes mesmo que eu terminasse.

-Tudo bem.

Respirei fundo e peguei a pequena bolsa brilhante sobre a penteadeira. Minhas mãos estavam firmes, pelo menos isso.

-Vamos?

Dei mais uma última olhada no espelho antes de sair, o vestido estava perfeito, os brincos estavam no lugar e por fim, a posta também.

A Serena que saiu daquele quarto não era a mesma que tinha gritado gol pelo Isaac algumas horas antes.

Aquela tinha sido irmã. Essa precisava ser Avelar.

O caminho até o evento pareceu mais curto do que deveria.

Fui ao banco de trás ao lado de Marina, enquanto mamãe seguia em silencio no branco da frente. Ninguém tentou puxar assunto, e eu agradeci por isso.

Havia momentos em que conversar parecia exigir uma energia que eu não tinha para oferecer.

Pelo vidro do carro, as luzes da cidade passavam em borrões dourados, refletindo no tecido do meu vestido sempre que eu me mexia. Toquei os brincos uma única vez, por impulso, e logo afastei a mão.

Não.

Eu não passaria a noite inteira lembrando de quem os havia mandado. Pelo menos era isso que eu tentava prometer a mim mesma.

-Voce está quieta. -Marina disse, baixo o suficiente para mamãe não ouvir.

Olhei para ela.

-Estou concentrada.

-Serena, você chama ansiedade de concentração desde os quinze anos. – Revirei os olhos, mas não consegui evitar um sorriso pequeno.

-Então estou muito concentrada.

Marina segurou minha mão por um segundo. Um gesto rápido, discreto, mas suficiente para me fazer respirar melhor.

-Vai dar certo.

Eu queria perguntar o que, exatamente, ela achava que daria certo. O evento? A venda? A nossa tentativa de parecer uma família que ainda tinha tudo sob controle? Mas apenas apertei os dedos dela de volta.

-Tem que dar.

Quando o carro parou diante do salão, a primeira coisa que vi foram as luzes.

A fachada estava iluminada em tons quentes, elegante sem exagero, como se aquela noite tivesse sido planejada por meses e não erguida às pressas sobre três dias de ligações, decisões e café demais.

Funcionários alinhados recebiam os convidados na entrada, e os carros paravam um atrás do outro, despejando vestidos longos, ternos escuros e sorrisos treinados.

Por fora, parecia uma celebração.

Era a mentira mais bem feita da noite.

Respirei fundo antes de descer. O ar estava fresco, mas minha pele parecia quente demais sob o vestido. Mamãe saiu primeiro, ajustando a postura como se também colocasse uma armadura invisível. Marina veio em seguida.

Eu fiquei mais um segundo dentro do carro.

Só um.

Olhei para a entrada, para os arranjos discretos, para o movimento controlado, para o nome Avelar aparecendo no painel luminoso perto da recepção.

Grupo Avelar.

Por anos, aquele nome abriu portas.

Naquela noite, eu precisava impedir que todos percebessem que ele estava prestes a fechar última.

-Serena? -Marina chamou.

Pisquei, voltando para mim.

-Já vou.

Peguei a bolsa, desci do carro e senti o salto tocar o chão com firmeza. Endireitei os ombros antes mesmo que alguém olhasse na minha direção.

A partir daquele ponto, cada gesto importava.

Cada sorriso.

Cada silencio.

Cada pessoa que se aproximava tentando descobrir se os rumores eram verdadeiros.

Subi os poucos degraus da entrada com mamãe ao meu lado. Ela tocou meu braço de leve, como se precisasse de apoio ou como se quisesse me oferecer um, talvez as duas coisas.

-Está tudo lindo. -Ela disse.

Olhei para o salão através das portas de vidro abertas.

Lustres acesos, música baixa, taças brilhando. Garçons circulando entre grupos de convidados que falavam em tons educados demais para serem espontâneos.

Tudo estava exatamente como eu havia pedido.

Tudo estava perfeito.

E, ainda assim, eu não conseguia deixar de pensar que perfeição também podia ser uma forma elegante de esconder o fim.

Assim que entrei no salão, tive a estranha sensação de estar olhando para uma mentira muito bem iluminada.

Os lustres refletiam nas taças, os arranjos ocupavam as mesas sem exagero e a música baixa preenchia os silêncios entre conversas educadas demais para serem espontâneas. Tudo estava exatamente como eu havia pedido. Elegante. Discreto. Impecável.

Por fora, parecia uma celebração.

Por dentro, eu sabia que era uma despedida.

— Serena Avelar.

Virei o rosto e encontrei o senhor Vasconcelos se aproximando com uma taça na mão e um sorriso que não chegava aos olhos.

— Senhor Vasconcelos — cumprimentei, oferecendo meu melhor sorriso.

Ele olhou ao redor, admirando o salão com calma.

— Sua mãe me disse que você assumiu a organização. Está impecável.

— Fico feliz que tenha gostado.

— Os Avelar sempre souberam transformar momentos delicados em algo memorável.

Momentos delicados.

Era assim que pessoas ricas chamavam uma queda quando não queriam parecer cruéis.

Mantive o sorriso.

— Aprendemos cedo a cuidar da imagem da família.

O olhar dele pousou em mim por um segundo, talvez surpreso pela resposta. Depois, ergueu a taça e se afastou.

Respirei fundo e atravessei o salão, corrigindo pequenos detalhes quase sem perceber. Um cartão torto. Um garçom andando rápido demais. Uma mesa que precisava de mais distância. Eu conhecia cada canto daquele lugar, cada nome da lista, cada saída possível.

Estava no controle.

Pelo menos era isso que todo mundo via.

Mamãe se aproximou pouco depois, elegante e pálida, com um sorriso pronto demais para ser verdadeiro.

— Alguns investidores chegaram — ela disse baixo. — Preciso que fique por perto.

Assenti.

— Estou aqui.

Ela olhou para mim por alguns segundos e demorou um pouco mais nos brincos. Não perguntou nada. Eu também não expliquei.

Mais um silêncio para a coleção da noite.

Então, sem aviso, o salão mudou.

Não foi a música. Não foi a luz. Não foi nenhum anúncio.

Foi o jeito como algumas conversas ficaram mais baixas. Como olhares se voltaram para a entrada. Como mamãe ficou rígida ao meu lado antes mesmo de olhar para a porta.

Meu corpo percebeu antes de mim.

Quando virei o rosto, entendi.

Ele tinha chegado.

Ele entrou sem pressa, como se o horário do evento tivesse sido ajustado para ele e não o contrário.

O salão não parou de uma vez. Seria exagero dizer isso. Mas as conversas diminuíram, alguns olhares se desviaram para a entrada e até o garçom mais próximo pareceu andar com um pouco mais de cuidado.

— É ele? — murmurei, mais para mim mesma do que para mamãe.

Mamãe não respondeu de imediato. Esse foi o meu primeiro sinal.

Quando virei o rosto, Caio Meirelles já estava dentro do salão.

A foto no notebook tinha sido injusta com ele. Não por deixá-lo pior, mas por deixá-lo simples demais. Pessoalmente, havia algo diferente. Uma calma incômoda. Um tipo de presença que não pedia espaço, apenas tomava.

— Ótimo — murmurei baixo, ajeitando a taça entre os dedos. — Ele ainda consegue ser pior pessoalmente.

— Serena — mamãe repreendeu num sussurro.

— Eu disse baixo.

— Eu ouvi.

— Então não foi baixo o suficiente.

Marina, do meu outro lado, disfarçou uma risada atrás da taça. Mamãe, porém, não riu. Os olhos dela estavam fixos em Caio com uma cautela que me incomodou mais do que a presença dele.

Ele cumprimentou dois homens perto da entrada antes de olhar em nossa direção. Não foi um olhar perdido, desses que passam por várias pessoas até encontrar um rosto conhecido. Foi direto. Exato. Como se já soubesse onde eu estava antes mesmo de virar.

Endireitei os ombros.

Se ele esperava me ver desconfortável, teria que procurar melhor.

Mamãe caminhou primeiro, e eu fui com ela. Cada passo parecia calculado demais, mas mantive o rosto tranquilo. A anfitriã perfeita. A filha educada. A mulher que usava brincos enviados por um estranho e fingia que aquilo não era absurdo.

Quando paramos diante dele, mamãe abriu um sorriso elegante.

— Caio, que bom que veio.

Caio.

Sem formalidade. Sem distância.

Guardei aquilo.

— Helena — ele respondeu, educado, mas frio.

Então olhou para mim.

Não para o vestido primeiro. Não para os brincos. Para mim.

— Serena.

Meu nome saiu da boca dele como se já tivesse sido dito antes.

Segurei a taça com um pouco mais de firmeza.

— Caio Meirelles.

O canto da boca dele se moveu quase nada. Não chegou a ser um sorriso, mas foi perto o suficiente para me irritar.

— Gosta de nomes completos?

— Gosto de saber com quem estou falando.

— E sabe?

A pergunta veio baixa, educada, quase simples.

Quase.

Sustentei o olhar dele.

— Estou começando a descobrir.

Dessa vez, ele sorriu de verdade. Pouco. Rápido. O tipo de sorriso que não entregava simpatia nenhuma, só confirmava que eu tinha respondido do jeito que ele esperava.

— A gala está impecável — ele disse, olhando ao redor por um instante. — Principalmente considerando o prazo.

— Três dias podem render bastante quando não temos escolha.

— Escolha sempre existe.

— Nem sempre para quem precisa lidar com as consequências.

Caio voltou os olhos para mim, e por um segundo o salão pareceu barulhento demais e silencioso demais ao mesmo tempo.

— Interessante — ele disse.

— O quê?

— Você fala como alguém que já entendeu o custo antes mesmo de receber a conta.

Não gostei da frase. Não gostei menos ainda do jeito como ela pareceu acertar um lugar que eu não tinha mostrado.

— E o senhor fala como alguém acostumado a cobrar.

Mamãe ficou rígida ao meu lado.

Marina quase se engasgou com a própria bebida.

Caio, por outro lado, não pareceu ofendido. Pelo contrário. A atenção dele ficou mais firme, como se finalmente tivesse encontrado algo que valesse alguns segundos a mais.

— Caio está bom — ele disse.

— Para quem?

O silêncio que veio depois foi curto, mas cheio o bastante para eu sentir o calor subir pela minha nuca.

Ele inclinou levemente a cabeça, sem desviar de mim.

— Para você.

A frase não tinha nada de íntima. Não exatamente. Mas o modo como ele disse fez parecer que havia outra conversa escondida dentro daquela.

Respirei devagar, porque perder a postura ali seria dar a ele uma vitória fácil demais.

— Prefiro manter a formalidade, senhor Meirelles.

— Por medo ou por estratégia?

— Por educação.

— Claro.

Ele disse como se não acreditasse em mim.

Então, finalmente, o olhar dele desceu. Foi rápido, discreto, quase imperceptível. Mas eu senti antes de ver. Os olhos dele tocaram os brincos azul-escuros por um segundo e voltaram para o meu rosto sem pressa.

Nenhum comentário.

Nenhuma explicação.

Só aquele silêncio irritante, calculado, como se ele soubesse que não dizer nada me incomodaria mais.

Apertei os lábios.

— Vai fingir que não sabe? — a frase quase escapou.

Mas eu a engoli antes que virasse voz.

Caio pareceu perceber mesmo assim.

— Algo errado, Serena?

O uso do meu nome, de novo. Sem sobrenome. Sem permissão.

— Nada que atrapalhe o evento.

— Que bom. Seria uma pena estragar uma noite tão bem planejada.

— Não se preocupe. Eu costumo cuidar bem do que organizo.

— Percebi.

A palavra veio baixa, simples demais. E, ainda assim, senti como se ele não estivesse falando apenas da gala.

Mamãe pigarreou, tentando retomar o controle de uma conversa que já tinha escapado das mãos dela.

— Caio reservou alguns minutos para conversar com alguns investidores mais tarde.

— Imagino que seja por isso que pediu uma sala reservada — respondi.

Ele não olhou para mamãe. Continuou olhando para mim.

— Você presta atenção aos detalhes.

— Detalhes costumam denunciar intenções.

— E o que meus detalhes denunciaram?

Sorri antes que pudesse evitar.

— Ainda estou decidindo.

Dessa vez, fui eu quem vi a mudança nele. Pequena, quase invisível, mas real. Caio Meirelles não esperava aquela resposta. Ou esperava e gostou demais de ouvi-la.

Não sei qual das duas opções me incomodou mais.

Ele inclinou a cabeça em um cumprimento discreto.

— Então aproveite a noite, Serena. Talvez ela te ajude a decidir.

Antes que eu respondesse, ele se afastou, cumprimentando outro convidado como se aquela conversa tivesse sido apenas mais uma formalidade da noite.

Mas não tinha sido.

— Serena — Marina sussurrou assim que ele se afastou. — O que foi isso?

Continuei olhando para o salão, fingindo que meu pulso não estava mais acelerado do que deveria.

— Uma apresentação.

Ela soltou uma risada baixa.

— Isso não foi uma apresentação.

Toquei a haste da taça com o polegar e forcei meu olhar para longe de Caio.

— Então foi só falta de costume.

— De quê?

Respirei fundo.

— De lidar com gente que acha que pode entrar em qualquer lugar como se já fosse dono.

Marina olhou para onde ele estava, depois para mim.

— E ele acha?

Não respondi de imediato.

Porque, naquele instante, a pior parte era admitir que Caio Meirelles não parecia achar.

Parecia saber.

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