Capítulo 5
Tentei voltar para o evento como se Caio Meirelles não tivesse acabado de transformar uma apresentação formal em alguma coisa que eu ainda não sabia nomear.
Falhei nos primeiros dez segundos.
Olhei para a taça que já estava em minha mão e percebi que o champanhe continuava praticamente no mesmo lugar. Eu não tinha bebido. Apenas segurava o cristal como se aquilo fosse uma desculpa elegante para não fechar os dedos em punho.
— Ótimo — murmurei, girando a taça devagar. — Perfeito. Uma noite inteira fingindo que não estou irritada.
— Você está falando sozinha de novo? — Marina apareceu ao meu lado, claramente se divertindo mais do que deveria.
— Estou organizando meus pensamentos em voz alta.
— Você chamou isso de irritação.
— Porque meus pensamentos estão irritados.
Marina olhou para onde Caio estava, conversando com dois investidores perto da mesa principal. Ele parecia completamente à vontade. Não sorria muito, não gesticulava demais, não precisava aumentar o tom da voz para manter atenção. As pessoas simplesmente inclinavam o corpo em direção a ele, como se cada palavra valesse mais do que deveria.
Isso me incomodou.
Muito.
— Ele mexeu com você — Marina disse.
Virei o rosto rápido.
— Não seja ridícula.
— Eu disse mexeu, não encantou.
— Continua ridículo.
Ela ergueu a taça para esconder o sorriso.
— Claro.
Respirei fundo e obriguei meu olhar a se afastar dele. O evento ainda estava acontecendo. Pessoas ainda precisavam ser cumprimentadas. Investidores ainda precisavam ouvir frases cuidadosamente pensadas. E eu ainda precisava ser Serena Avelar, não uma mulher incomodada porque um homem arrogante sabia escolher brincos melhor do que deveria.
— Vou verificar a mesa dos convidados principais — avisei.
— A mesa está perfeita.
— Então vou verificar de novo.
— Serena.
— Marina.
Ela suspirou, mas me deixou ir.
Atravessei o salão com passos firmes, usando cada pequeno detalhe como desculpa para me manter ocupada. Ajustei um cartão que já estava alinhado. Perguntei ao garçom sobre o horário da próxima rodada de entradas. Conferi a distância entre as mesas como se dois centímetros fossem decidir o futuro da família Avelar.
Talvez decidissem.
Quando passei perto do grupo onde Caio estava, fiz questão de não olhar.
Foi por isso que ouvi.
— A imagem ainda é forte — disse um dos investidores. — Mas força sem direção não sustenta uma marca por muito tempo.
— Depende de quem assume a direção — Caio respondeu.
A voz dele era baixa, mas alcançou exatamente onde precisava.
Meu passo quase falhou.
Quase.
Continuei andando fingindo que não tinha ouvido, mas senti o olhar dele tocar minhas costas antes mesmo de me afastar. Não virei. Não daria esse gosto.
— Respira, Serena — murmurei entre os dentes. — Você já lidou com coisa pior do que um homem bonito com complexo de dono do mundo.
— Falando sozinha outra vez?
Parei.
A voz veio atrás de mim, calma demais.
Virei devagar e encontrei Caio a poucos passos de distância, uma das mãos no bolso, a outra segurando uma taça quase intocada.
— O senhor tem o hábito de surgir sem ser convidado?
— Em eventos, normalmente o convite já resolve essa parte.
— Eu quis dizer nas conversas.
— Conversas em voz alta costumam correr esse risco.
Apertei os lábios.
— Eu estava falando comigo mesma.
— Percebi.
— Então poderia ter respeitado minha privacidade.
O canto da boca dele se moveu de leve.
— Privacidade no meio de uma gala, Serena?
Meu nome de novo.
Sem sobrenome.
Sem distância.
— O senhor sabe ser irritante com muita naturalidade.
— E você responde melhor irritada.
A frase deveria me ofender. Talvez tivesse ofendido. O problema era que também me obrigou a segurar uma resposta antes que ela saísse afiada demais.
— Cuidado, senhor Meirelles. Pode parecer que está prestando atenção demais em mim.
Ele sustentou meu olhar por um segundo a mais do que o necessário.
— Talvez eu esteja.
O ar entre nós mudou.
Não de forma romântica. Não exatamente.
Foi pior.
Foi como quando alguém encosta a mão em uma porta fechada e você percebe, tarde demais, que ela nunca esteve trancada.
Antes que eu respondesse, Patrícia apareceu ao meu lado com uma expressão profissional demais para ser natural.
— Serena, desculpa interromper.
Agradeci mentalmente pela interrupção, mesmo odiando precisar dela.
— O que foi?
Ela olhou para Caio, depois para mim.
— A sala reservada está pronta.
Meu estômago afundou um pouco.
Caio não pareceu surpreso.
Claro que não.
— Ótimo — ele disse, pousando a taça sobre a bandeja de um garçom que passava. — Podemos conversar agora.
Franzi a testa.
— Podemos?
— Era para isso que a sala foi solicitada.
Olhei para Patrícia.
Ela desviou os olhos.
Que maravilha.
— Eu achei que fosse para os investidores — respondi.
— Também será.
— Também?
Caio inclinou a cabeça, educado, frio, insuportavelmente calmo.
— Primeiro, você.
A frase caiu entre nós com um peso que nenhuma música do salão conseguiu disfarçar.
Marina, do outro lado do ambiente, olhou em nossa direção como se tivesse sentido alguma coisa mudar. Mamãe também. E a forma como ela não pareceu surpresa fez meu peito apertar mais do que deveria.
Voltei meus olhos para Caio.
— Se isso for algum tipo de jogo, senhor Meirelles, eu não tenho tempo.
— Então é bom que saiba as regras antes de perder.
Senti minha mandíbula travar.
— Eu não perco jogos que nunca aceitei jogar.
Dessa vez, ele sorriu.
Pouco.
Quase nada.
Mas o suficiente para me fazer odiar o fato de ter percebido.
— Ainda não.
A sala reservada ficava no corredor lateral do salão, distante o bastante da música para que cada passo parecesse mais alto do que deveria.
Caminhei na frente por pura teimosia.
Não porque soubesse exatamente para onde estava indo. Patrícia tinha indicado a porta com um gesto discreto antes de praticamente desaparecer, e eu estava convencida de que aquela mulher merecia uma conversa séria depois. Uma conversa longa. Talvez com planilhas, porque traições organizacionais precisavam de registro.
Caio caminhava atrás de mim sem pressa.
Isso também me irritou.
— O senhor sempre tem esse costume? — perguntei, sem olhar para trás.
— Qual deles?
— Agir como se todos os lugares estivessem esperando sua chegada.
— Não todos.
Parei diante da porta e finalmente me virei.
— Só os que importa?
Ele sustentou meu olhar com aquela calma impossível.
— Só os que me interessam.
A resposta veio baixa, educada e irritantemente precisa. Abri a porta antes que minha expressão entregasse mais do que deveria.
A sala era menor que o salão principal, mas tão elegante quanto. Havia uma mesa de madeira escura no centro, duas poltronas, uma bandeja com água e café, e uma janela lateral que dava para a área externa do espaço. Tudo parecia neutro demais. Perfeito demais. Como se tivesse sido preparado para uma conversa que eu ainda não tinha aceitado ter.
Entrei primeiro e deixei a porta aberta.
Caio reparou.
Claro que reparou.
— Prefere assim?
— Prefiro que ninguém ache que tenho motivos para fechar portas com o senhor.
O canto da boca dele se moveu de leve.
— Prudente.
— Necessário.
Ele passou por mim e entrou, mas não se sentou. Em vez disso, ficou perto da mesa, retirando um envelope escuro de dentro do paletó com uma naturalidade que fez meu estômago apertar antes mesmo de eu entender o motivo.
— O que é isso?
— Uma proposta.
Soltei uma risada curta.
— Que ótimo. Eu estava mesmo sentindo falta de mais uma nesta noite.
— Esta é diferente.
— Todas são, até começarem a custar alguma coisa.
Ele colocou o envelope sobre a mesa, sem empurrá-lo para mim.
— Esta pode salvar o Grupo Avelar.
A frase tirou todo o humor da sala.
Fiquei imóvel por um segundo, encarando o envelope como se ele tivesse criado dentes.
— O senhor escolheu um jeito bem dramático de falar sobre investimento.
— Não é um investimento.
Olhei para ele.
— Então o que é?
Caio demorou um instante antes de responder. Não porque hesitou. Ele não parecia o tipo de homem que hesitava. Parecia apenas medir o peso exato da próxima palavra.
— Um casamento.
O som da música do salão pareceu desaparecer.
Por um segundo, achei que não tivesse entendido. Ou que ele tivesse usado outra palavra parecida. Contrato. Acordo. Sociedade. Qualquer coisa que fizesse sentido.
Mas não.
Casamento.
Piscar foi a única reação que me permiti antes de rir. Uma risada sem força, sem humor, sem nenhuma elegância.
— Desculpa, acho que ouvi errado.
— Não ouviu.
— Então o senhor enlouqueceu.
— Também não.
Cruzei os braços devagar, porque se deixasse minhas mãos livres talvez pegasse aquele envelope e jogasse nele.
— O senhor me trouxe para uma sala reservada, no evento de encerramento da empresa da minha família, para me propor casamento?
— Para propor um contrato.
— Com casamento no meio.
— Com casamento como estrutura.
— Estrutura? — repeti, dando um passo à frente. — Que palavra bonita para uma insanidade.
Caio permaneceu calmo. Insuportavelmente calmo.
— Seu sobrenome ainda tem valor social. O meu tem força financeira. Juntos, eles mudam a narrativa.
— Narrativa?
— Falência vira reestruturação. Desespero vira estratégia. O fim do Grupo Avelar vira uma aliança entre famílias.
Fiquei olhando para ele, tentando encontrar algum traço de brincadeira. Não havia nenhum.
— Você fala da minha vida como se estivesse reorganizando uma manchete.
— Porque é assim que o mercado vai ler.
— Eu não sou o mercado.
— Não. — O olhar dele ficou um pouco mais firme. — Você é a parte que torna a proposta aceitável.
Senti o sangue esquentar.
— Cuidado com a forma como fala comigo.
— Estou sendo claro.
— Está sendo arrogante.
— Também.
A resposta me pegou desprevenida, e isso me irritou ainda mais.
— O senhor acha mesmo que eu vou aceitar casar com um homem que conheci há menos de uma hora?
— Acho que você vai recusar primeiro.
— Que bom que pelo menos uma coisa o senhor entendeu.
— Depois vai pensar.
— Não vou.
— Vai.
— Senhor Meirelles, eu não sei com que tipo de pessoa o senhor está acostumado a negociar, mas eu não sou uma empresa em crise que pode ser comprada em uma reunião privada.
Pela primeira vez, algo na expressão dele mudou. Muito pouco. Quase nada. Mas mudou.
— Eu não compro pessoas, Serena.
Meu nome, de novo, dito como se ele tivesse algum direito sobre ele.
— Não? Porque essa proposta parece bastante empenhada em provar o contrário.
Ele ficou em silêncio por um instante. Depois empurrou o envelope poucos centímetros na minha direção.
— Leia antes de decidir que isso é uma insanidade.
— Eu já decidi.
— Então leia para ter argumentos melhores.
A vontade de responder foi imediata. Mas a pior parte era que ele tinha dito aquilo com tanta calma que parecia realmente esperar que eu fizesse exatamente isso.
Olhei para o envelope.
Depois para ele.
— Por que eu?
Caio não respondeu rápido.
E aquele segundo, aquele pequeno intervalo antes da resposta, foi a primeira coisa verdadeiramente perigosa que vi nele.
— Porque você ainda tenta proteger uma casa que já começou a queimar.
Minha garganta fechou.
— E o senhor está oferecendo água?
— Estou oferecendo uma saída.
— Saídas não costumam vir com aliança.
— As mais caras, sim.
Soltei o ar pelo nariz, sem acreditar no que estava ouvindo.
— Você é inacreditável.
— Já ouvi pior.
— Imagino que mereceu.
Dessa vez, ele quase sorriu.
— Algumas vezes.
Eu deveria ir embora. Era isso que qualquer pessoa sensata faria. Sairia daquela sala, voltaria para o evento e fingiria que essa conversa nunca aconteceu.
Mas meu olhar caiu de novo no envelope.
Grupo Avelar.
Mamãe.
Isaac.
Marina.
Meu pai.
Tudo que eu carregava nas costas desde que aprendi a não reclamar do peso.
— Quanto tempo? — perguntei antes que pudesse impedir.
Caio me observou com atenção.
— Para quê?
— Para esse contrato ridículo.
— Doze meses.
Ri baixo, sem humor.
— Um ano.
— Um ano de casamento. Uma imagem pública estável. Algumas aparições. Nenhuma interferência na sua vida pessoal além do necessário.
— Que generoso da sua parte me deixar existir dentro do meu próprio casamento.
— Seria mais fácil se eu mentisse?
— Seria mais educado.
— Você não parece interessada em educação agora.
— Estou tentando não jogar água na sua cara.
Ele olhou para a bandeja sobre a mesa.
— Café mancha menos.
Por um segundo, odiei o fato de quase rir.
Quase.
Apertei os lábios e dei um passo para trás.
— Eu não vou aceitar isso.
Caio não tentou me impedir. Não se moveu. Não insistiu. Apenas olhou para o envelope entre nós como se soubesse que ele pesava mais do que minha recusa.
— Hoje, não.
A frase me fez parar.
— Como?
Ele ergueu os olhos para mim.
— Você não vai aceitar hoje.
Meu peito subiu e desceu devagar.
— O senhor tem muita certeza sobre alguém que acabou de conhecer.
— Eu conheço decisões desesperadas. Elas sempre começam com não.
O silêncio que veio depois foi pesado demais para caber naquela sala.
Minha mão tocou a maçaneta da porta.
— Então considere o meu não muito definitivo.
Caio inclinou a cabeça, educado como se eu tivesse acabado de confirmar presença em outro evento.
— Boa noite, Serena.
Abri a porta, mas antes de sair, ouvi a voz dele outra vez.
— Leve o envelope.
Parei sem virar.
— Não.
— Então vai passar a noite inteira pensando no que deixou aqui.
Fechei os olhos por um segundo.
Insuportável.
Virei, peguei o envelope da mesa e encarei Caio pela última vez antes de sair.
— Isso não significa nada.
Ele olhou para o envelope na minha mão, depois para mim.
— Ainda não.
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