Capítulo 6
Saí da sala reservada com o envelope na mão e a sensação de que tinha deixado alguma coisa minha lá dentro.
Talvez a paciência.
Talvez o pouco de controle que ainda me restava.
O corredor parecia mais comprido na volta. A música do salão chegava abafada, elegante demais para combinar com a vontade que eu tinha de rasgar aquele papel em pedaços pequenos e jogar tudo dentro da primeira taça de champanhe que encontrasse.
— Casamento — murmurei, apertando o envelope contra o corpo. — Claro. Porque falência não era dramática o suficiente.
Uma funcionária passou por mim no corredor e sorriu, educada. Sorri de volta por puro reflexo.
Ótimo.
Eu ainda sabia fingir.
Quando voltei ao salão, tudo continuava exatamente no lugar. As luzes, as flores, os garçons, os convidados vestidos como se aquela noite fosse apenas mais um evento bonito em uma agenda cheia de compromissos importantes.
Nada tinha mudado.
Era irritante como o mundo conseguia continuar intacto depois de alguém virar o seu de cabeça para baixo.
Enfiei o envelope dentro da bolsa pequena com mais força do que o necessário e respirei fundo antes de atravessar o salão.
— Serena.
Parei ao ouvir a voz de Marina.
Ela estava perto da mesa principal, os olhos indo do meu rosto para a bolsa e depois de volta para mim. Minha irmã sempre teve esse defeito insuportável de perceber demais.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Você saiu com Caio Meirelles e voltou com cara de quem quer incendiar o salão.
— Então estou melhor do que pensei. Achei que estivesse com cara de quem queria incendiar ele.
Marina piscou, surpresa. Depois chegou mais perto.
— Serena.
— Não agora.
— Foi tão ruim assim?
Olhei para o outro lado do salão, onde Caio conversava com dois homens como se não tivesse acabado de sugerir transformar minha vida em uma cláusula contratual. Ele estava calmo. Sempre calmo. Isso me dava vontade de atravessar o salão só para descobrir se aquela calma sobrevivia a um tapa.
— Foi ridículo — respondi.
— Ridículo como?
Voltei meus olhos para ela.
— Como uma proposta indecente usando papel timbrado.
Marina abriu a boca, mas mamãe apareceu antes que ela perguntasse qualquer coisa.
— Serena, precisamos conversar.
O jeito como ela disse aquilo fez meu estômago afundar.
Não era preocupação.
Era culpa.
Olhei para mamãe, elegante, pálida e firme demais para alguém que deveria estar tão surpresa quanto eu.
— Você sabia.
Mamãe não respondeu.
E, de repente, o envelope dentro da minha bolsa pareceu pesar o dobro.
Ela me guiou para uma lateral do salão, perto de uma parede decorada com arranjos altos demais para alguém se aproximar sem ser notado. Ainda assim, eu conseguia ouvir a música baixa, as conversas educadas, o tilintar das taças.
Tudo bonito demais.
Tudo falso demais.
— Serena, antes que você tire conclusões...
— Tarde demais.
Mamãe fechou os olhos por um segundo.
— Eu não sabia que ele falaria com você hoje.
Soltei uma risada baixa, sem humor.
— Que alívio. Então você só sabia que ele falaria em algum momento?
Ela não respondeu rápido o bastante.
Meu peito apertou.
— Mamãe.
— Eu sabia que Caio tinha uma proposta.
— Uma proposta? — repeti, tentando manter a voz baixa. — Ele propôs um casamento, não uma reunião de negócios.
— Eu sei.
O chão pareceu inclinar um pouco sob meus pés.
— Você sabe?
— Serena, por favor.
— Por favor, o quê? Para eu não fazer escândalo? Para eu sorrir e fingir que não acabei de ser oferecida como parte de uma reestruturação familiar?
— Ninguém está te oferecendo.
— Não? Porque, até onde entendi, meu sobrenome virou argumento de venda e eu fui a última a ser avisada.
Mamãe desviou o olhar para o salão. Vi o esforço dela para manter a postura, para não deixar a voz tremer, para continuar sendo a mulher que todos ali esperavam que ela fosse.
Por um segundo, tive pena.
No seguinte, tive raiva por sentir pena.
— As coisas estão piores do que você imagina — ela disse.
— Essa frase perdeu força depois de falência, mamãe.
— Não é só falência.
Fiquei imóvel.
Ela pareceu se arrepender no mesmo instante.
— Como assim não é só falência?
Mamãe apertou os dedos na pequena bolsa que segurava.
— Não aqui.
— Você não pode jogar uma frase dessas e depois dizer "não aqui".
— E você não pode exigir respostas no meio de um salão cheio de gente esperando qualquer deslize nosso.
Olhei ao redor por impulso. Alguns convidados conversavam perto da mesa principal. Um garçom passava com uma bandeja. Marina nos observava de longe, fingindo que não.
E Caio...
Caio estava perto demais para alguém que deveria estar ocupado.
Conversava com um investidor, mas seu olhar veio na nossa direção por uma fração de segundo. Curto. Discreto. O suficiente para me irritar.
— Ele sabe? — perguntei baixo.
Mamãe acompanhou meu olhar e endureceu.
— Caio sabe de muitas coisas.
— Que resposta maravilhosa. Muito esclarecedora.
— Serena.
— Não. — Virei para ela de novo. — Eu organizei essa noite. Eu ouvi as pessoas comentando sobre o nome do papai como se ele fosse uma peça de museu. Eu usei um vestido que parece uma armadura e sorri para gente que provavelmente já decidiu quanto vale nossa queda. E agora descubro que você sabia que aquele homem tinha uma proposta absurda envolvendo minha vida?
Mamãe respirou fundo, e pela primeira vez naquela noite a firmeza dela pareceu falhar.
— Eu sabia que ele poderia nos ajudar.
— A que custo?
O silêncio dela foi resposta suficiente.
Apertei os lábios, tentando impedir que qualquer coisa no meu rosto se quebrasse.
— Você pensou em me contar?
— Pensei.
— Mas não contou.
— Eu queria te proteger.
Dessa vez, eu ri. Não alto. Não o suficiente para chamar atenção. Mas ri.
— Engraçado como todo mundo parece querer me proteger me deixando sem informação.
A frase saiu mais amarga do que eu pretendia. Mamãe sentiu. Eu vi.
— Você acha que eu queria isso? — ela perguntou, a voz mais baixa. — Acha que eu queria chegar a esse ponto? Olhar para minha filha e saber que talvez a única saída venha de um homem como Caio Meirelles?
— Então você admite que ele é perigoso.
Ela ficou em silêncio.
Meu estômago afundou mais um pouco.
— Mamãe.
— Eu admito que ele não faz nada sem motivo.
Virei o rosto na direção dele de novo, mas Caio já não olhava para nós. Estava de costas, conversando com o mesmo grupo, como se não tivesse sido assunto de nenhuma frase.
— Ótimo — murmurei. — Cada vez melhor.
Mamãe tocou meu braço, e eu quase me afastei. Quase.
— Serena, eu não vou te obrigar a nada.
— Mas espera que eu considere.
Ela não respondeu.
— Claro — sussurrei. — Todo mundo espera alguma coisa de mim.
— Filha...
— Não agora.
Puxei o braço com cuidado, não por delicadeza, mas porque qualquer movimento brusco seria notado.
— Preciso voltar para o evento.
— Serena, por favor, não tome uma decisão com raiva.
Olhei para ela.
— Fica tranquila. Com raiva, eu tomaria decisões muito mais satisfatórias.
Antes que ela pudesse responder, me afastei.
Cada passo de volta ao centro do salão parecia pesado, mas mantive o sorriso no rosto quando um casal de convidados passou por mim. Cumprimentei os dois, agradeci o elogio sobre a noite e disse alguma coisa sobre a importância de encerrar ciclos com dignidade.
Dignidade.
A palavra quase me fez rir.
Quando finalmente consegui ficar sozinha por alguns segundos perto da mesa de bebidas, toquei a bolsa pequena e senti o formato do envelope lá dentro.
Ainda estava ali.
Claro que estava.
Caio Meirelles tinha entrado na minha vida há poucas horas e já havia conseguido ocupar espaço demais nela.
— Você parece prestes a quebrar a taça.
A voz veio ao meu lado.
Não precisei olhar para saber quem era.
Apertei os dedos ao redor do cristal e respirei devagar.
— Então talvez o senhor devesse se afastar. Seria um desperdício quebrar champanhe caro por sua causa.
Bạn đang đọc truyện trên: Truyen4U.Com