Capítulo 7
— Você parece prestes a quebrar a taça.
Apertei os dedos ao redor do cristal e respirei devagar.
— Então talvez o senhor devesse se afastar. Seria um desperdício quebrar champanhe caro por sua causa.
Caio olhou para a taça, depois para mim.
— Não sabia que eu causava esse tipo de reação.
— Não se anime. Irritação também é uma reação.
O canto da boca dele se moveu de leve, quase como se aquilo tivesse sido exatamente o que esperava ouvir.
— Você pretende passar a noite inteira fingindo que nada aconteceu?
— Era uma possibilidade até o senhor aparecer.
— Então apareci na hora certa.
— Ou na pior.
— Costuma ser parecido.
Virei o rosto para ele devagar, tentando entender se aquele homem tinha algum limite para a própria arrogância. Pelo visto, não. Caio Meirelles estava ao meu lado como se não tivesse acabado de propor um casamento contratual dentro de uma sala reservada, no meio do evento de encerramento da empresa da minha família.
Como se fosse normal.
Como se eu fosse a exagerada por não aceitar aquilo com uma taça na mão e um sorriso no rosto.
— O senhor tem alguma dificuldade em entender recusas? — perguntei.
— Nenhuma.
— Ótimo. Então considere a minha entendida.
— Eu entendi.
— Não parece.
— Entender não significa concordar.
Soltei uma risada baixa, sem humor.
— Incrível. O senhor consegue transformar qualquer frase simples em algo irritante.
— E você consegue transformar irritação em postura.
Meu sorriso morreu antes de nascer.
— Isso foi um elogio?
— Foi uma observação.
— Guarde suas observações para os investidores.
— Eles são menos interessantes.
A resposta veio calma demais. Direta demais. E, por algum motivo irritante, fez o ar entre nós parecer um pouco menor.
Olhei para o salão, fingindo procurar alguém, qualquer pessoa que justificasse minha saída dali. Marina estava conversando com mamãe perto da mesa principal, mas olhava para mim de tempos em tempos. Patrícia falava com um dos garçons. Os convidados continuavam sorrindo, bebendo e fingindo que aquela noite não tinha cheiro de despedida.
— Está tentando fugir? — Caio perguntou.
— Estou tentando lembrar por que ainda estou aqui.
— Família costuma ser um motivo eficiente.
Meu olhar voltou para ele.
— O senhor fala como se soubesse muito sobre a minha.
— Sei o suficiente.
Senti a mão apertar a taça de novo.
— Essa frase não ajuda no seu caso.
— Não estou tentando ajudar meu caso.
— Então o que está tentando fazer?
Caio sustentou meu olhar por alguns segundos. Não havia pressa nele. Nenhuma tentativa de parecer gentil. Nenhum desconforto por estar diante da pessoa cuja vida tinha acabado de virar do avesso.
— Fazer você ler o contrato antes de decidir que isso é uma insanidade.
— Eu já decidi.
— Então leia para ter argumentos melhores.
Cerrei os dentes.
— O senhor é sempre assim?
— Assim como?
— Insuportavelmente calmo.
— Só quando a situação exige.
— E o que a situação exige agora?
Ele se aproximou meio passo. Pouco. Discreto. O suficiente para ninguém no salão achar estranho. O suficiente para eu perceber.
— Que você pare de fingir que a proposta não existe.
Meu corpo ficou rígido.
— A proposta não existe para mim.
— Existe dentro da sua bolsa.
O silêncio que veio depois foi curto, mas pesado.
Apertei os lábios e desviei o olhar antes que ele percebesse demais. Tarde. Caio parecia sempre perceber antes mesmo que eu decidisse esconder.
— O senhor realmente se acha muito inteligente.
— Não é uma questão de inteligência.
— Então é o quê?
— Atenção.
Olhei para ele de novo.
— Aos detalhes?
— Às pessoas.
A frase quase pareceu humana.
Quase.
Foi exatamente por isso que me incomodou.
— Que bonito — murmurei. — Quase consegui acreditar.
— Não preciso que acredite.
— Claro. O senhor só precisa que eu assine.
— Ainda não.
A palavra voltou como uma sombra da conversa anterior. Ainda. Como se minha recusa fosse apenas uma etapa. Como se minha vida tivesse virado um processo dividido em fases, e ele já soubesse qual seria a próxima.
Coloquei a taça sobre a mesa mais próxima com cuidado demais.
— Escute bem, senhor Meirelles. Eu não sei quem o senhor acha que eu sou, mas não vou ser empurrada para dentro de um casamento porque isso deixa uma manchete mais bonita.
— Eu sei quem você é.
Ri, curta e seca.
— Sabe?
— Sei que você organizou uma gala em três dias para tentar salvar a imagem de uma empresa que já estava afundando. Sei que mudou o horário do evento para ir ao jogo do seu irmão. Sei que usou os brincos mesmo sabendo de onde vieram, porque preferiu transformar incômodo em resposta.
Minha garganta ficou seca.
Por um segundo, não encontrei nada para dizer.
E eu odiei isso.
Caio percebeu. Claro que percebeu.
— Como eu disse — ele continuou, baixo. — Atenção.
Dei um passo para trás.
— Isso não é atenção. É invasão.
— Talvez.
— Talvez?
— Às vezes a diferença depende de quem está perdendo o controle.
O calor subiu pelo meu rosto, mas mantive a expressão firme.
— O senhor está muito confortável para alguém que acabou de admitir algo tão desagradável.
— Você está muito firme para alguém que acabou de ficar sem resposta.
Toquei a bolsa pequena por impulso e senti o envelope lá dentro.
Meu erro.
Os olhos dele acompanharam o gesto.
— Leia, Serena.
— Pare de dizer meu nome como se tivesse algum direito sobre ele.
A frase saiu antes que eu pudesse medir.
Caio ficou em silêncio.
Pela primeira vez, pareceu realmente escolher a resposta.
— Então me dê outro para usar.
Eu franzi a testa.
— Como?
— Senhor Meirelles parece te irritar.
— Por que irrita o senhor?
— Porque cria distância.
— Esse é exatamente o objetivo.
Dessa vez, o quase sorriso voltou.
— Então está funcionando.
— Que bom.
— Mas não tanto quanto você gostaria.
Fiquei olhando para ele, tentando decidir se jogava a taça que eu já não segurava ou se simplesmente saía andando.
Escolhi a segunda opção.
— Aproveite o evento, senhor Meirelles.
— Pretendo.
Dei dois passos antes de ouvir a voz dele outra vez.
— O prazo termina amanhã.
Parei.
Não virei de imediato.
O salão continuava ao meu redor. Música baixa, risadas educadas, vestidos longos, taças cheias. Tudo bonito. Tudo normal. Tudo completamente fora do lugar.
Virei apenas o rosto.
— Que prazo?
Caio me observava com a mesma calma de antes.
— O da sua família.
Meu peito apertou.
— Isso é uma ameaça?
— É um aviso.
— E qual é a diferença?
Ele olhou para minha bolsa por um segundo, depois para mim.
— A diferença está no contrato.
A vontade de responder desapareceu por completo.
Caio inclinou a cabeça, como se tivesse acabado de encerrar uma conversa comum.
— Boa noite, Serena.
Dessa vez, ele foi embora primeiro.
E eu fiquei parada no meio do salão, com a bolsa pequena pesando contra meu corpo e uma única certeza se formando, fria e incômoda.
Eu precisava abrir aquele envelope.
Saí do salão antes que alguém percebesse que eu precisava sair.
Caminhei até o corredor lateral com passos controlados, como se estivesse apenas indo verificar algum detalhe do evento. Um sorriso discreto para uma convidada. Um aceno para um garçom. Uma frase rápida para Patrícia, que tentou se aproximar e desistiu quando viu minha expressão.
Boa escolha.
O banheiro feminino ficava no fim do corredor, iluminado por uma luz mais suave que a do salão. Entrei, tranquei a porta de uma das cabines e só então permiti que meus ombros caíssem por um segundo.
— Parabéns, Serena — murmurei, puxando o envelope da bolsa. — Você está escondida em um banheiro lendo uma proposta de casamento feita por um homem que conhece há algumas horas. Excelente noite.
O envelope era pesado demais para poucas folhas.
Claro que era.
Caio Meirelles provavelmente não fazia nada sem parecer caro, inclusive destruir a paz dos outros.
Passei o dedo pela borda do papel e respirei fundo antes de abrir. Minha intenção era ler apenas a primeira página. Só o suficiente para confirmar que aquilo era realmente tão absurdo quanto parecia.
Mas a primeira coisa que vi foi meu nome.
Serena Avelar.
Completo e centralizado.
Impresso em um documento formal, como se eu tivesse feito parte daquela decisão desde o início.
Meu estômago apertou.
— Que ótimo — sussurrei. — Até meu nome ele organizou antes de mim.
Desdobrei a primeira folha e comecei a ler.
Contrato de União Civil e Aliança Patrimonial Estratégica.
Eu ri. Baixo. Sem humor nenhum.
— Casamento virou "aliança patrimonial estratégica". Romântico como uma reunião fiscal.
Continuei descendo os olhos pela página, tentando ignorar o modo como minhas mãos pareciam mais frias.
Cláusula 1 — Da finalidade do acordo: a presente união tem como objetivo estabelecer vínculo público e jurídico entre Serena Avelar e Caio Meirelles, visando à preservação da imagem da família Avelar, à estabilização pública do Grupo Avelar e à condução de tratativas financeiras relacionadas aos ativos remanescentes da empresa.
Parei de ler, li de novo.
A estabilização pública do Grupo Avelar.
Ativos remanescentes.
Tratativas financeiras.
Tudo escrito com palavras limpas demais para o tamanho da sujeira que pareciam esconder.
— Eu não sou um ativo remanescente — falei baixo, apertando a folha.
Minha voz saiu firme, mas ninguém estava ali para ouvir. Talvez fosse por isso que soou menos convincente do que eu queria.
Voltei ao contrato.
Cláusula 2 — Da duração: o acordo terá vigência inicial de doze meses, contados a partir da formalização civil da união, podendo ser encerrado por comum acordo entre as partes após o cumprimento das obrigações de imagem, presença pública e confidencialidade previstas neste instrumento.
— Doze meses — repeti. — Como se um ano da minha vida fosse um aluguel de imagem.
Passei para a cláusula seguinte.
Cláusula 3 — Das obrigações de imagem: as partes deverão manter comportamento público compatível com a união formalizada, incluindo comparecimento conjunto a eventos previamente definidos, declarações públicas limitadas e preservação da narrativa familiar acordada entre as partes.
Narrativa familiar acordada.
Apertei os olhos por um instante.
— Minha família mal consegue concordar sobre o almoço, mas claro, vamos concordar sobre um casamento falso.
O som da música chegava abafado do lado de fora, quase distante. No espelho da cabine, vi apenas uma parte do vestido azul-marinho e o brilho dos brincos perto do meu rosto.
Os brincos.
Meu maxilar travou, continuei lendo, mesmo sabendo que deveria parar.
Cláusula 4 — Da confidencialidade: nenhuma das partes poderá revelar a natureza contratual da união a terceiros não autorizados, incluindo imprensa, investidores, associados comerciais ou membros externos ao núcleo familiar previamente definido.
Membros externos, núcleo familiar previamente definido.
Meu coração bateu mais forte.
— Quem definiu meu núcleo familiar, Caio? — perguntei para o papel. — Você também escolheu quem ganha convite para a minha própria vida?
Virei a página.
E então parei.
Cláusula 5 — Da proteção patrimonial: mediante formalização da união, o Grupo Meirelles se compromete a assumir negociações prioritárias relacionadas aos débitos urgentes do Grupo Avelar, incluindo, mas não se limitando, às dívidas bancárias com vencimento imediato, obrigações trabalhistas pendentes e contratos em risco de execução judicial.
Dívidas bancárias.
Obrigações trabalhistas.
Execução judicial.
As palavras ficaram borradas por um segundo, não por lágrimas, por raiva e por medo.
Por perceber que Caio não tinha usado "o prazo da minha família" para me assustar sem motivo.
Ele sabia.
Sabia muito.
Mais do que eu.
Apertei a folha com força e saí da cabine, indo direto para a pia. Apoiei o contrato sobre a bancada de mármore e encarei meu reflexo no espelho.
Vestido impecável, brincos no lugar, rosto controlado.
E uma mulher que tinha acabado de descobrir que talvez a própria família estivesse afundando em um buraco muito mais fundo do que contaram.
— Respira — ordenei para mim mesma. — Você não vai desmaiar em banheiro de gala. Isso seria humilhante demais.
Abri a torneira e molhei a ponta dos dedos, tomando cuidado para não borrar a maquiagem. A água fria ajudou pouco, mas ajudou.
Peguei o contrato de novo.
Havia uma última página marcada com um pequeno clipe prateado. Não queria olhar.
Olhei.
Anexo I — Cronograma de formalização.
Data limite para aceite preliminar: domingo, 18h.
Minha boca ficou seca.
Domingo, amanhã.
Continuei lendo.
Em caso de recusa ou ausência de manifestação formal até o prazo estipulado, o Grupo Meirelles se reserva ao direito de retirar a proposta de suporte emergencial e reavaliar participação em tratativas envolvendo o Grupo Avelar.
— Filho da mãe — sussurrei.
A porta do banheiro se abriu.
Levantei os olhos rápido, enfiando as folhas contra o corpo por instinto. Marina entrou, fechou a porta atrás de si e parou ao me ver.
Seu olhar foi do meu rosto para o contrato amassado em minhas mãos.
— Serena. -Apertei os papéis com mais força.
— Não pergunta. -Ela deu um passo devagar.
— Eu vou perguntar.
Soltei uma risada curta, desesperada demais para ser engraçada.
— Claro que vai.
Marina chegou mais perto, a preocupação apagando qualquer traço de brincadeira do rosto dela.
— O que tem nesse envelope?
Olhei para o contrato.
Depois para minha irmã.
E, pela primeira vez naquela noite, não consegui encontrar uma resposta afiada o bastante para esconder a verdade.
— Um ano da minha vida.
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