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Capítulo 8

Marina ficou parada na minha frente por alguns segundos, como se estivesse tentando entender se eu tinha falado sério ou se aquela era alguma forma péssima de ironia.

Eu quase desejei que fosse.

— Um ano da sua vida? — ela repetiu, devagar.

Apertei o contrato contra o corpo e olhei para a porta do banheiro, como se alguém pudesse entrar a qualquer momento. A música do salão ainda chegava abafada, junto com risadas distantes e o som elegante de uma noite que continuava acontecendo sem pedir permissão para a minha crise.

— Fala mais baixo.

— Serena, você acabou de dizer que tem um ano da sua vida dentro desse envelope e quer que eu fale baixo?

— Quero que ninguém descubra que eu estou prestes a perder a cabeça no banheiro de uma gala.

Marina respirou fundo e deu mais um passo na minha direção. O olhar dela foi para os papéis amassados na minha mão, depois voltou para o meu rosto. Dessa vez, não havia brincadeira nenhuma ali.

— Me dá isso.

— Não.

— Serena.

— Marina.

— Para de tentar controlar até o desastre.

Soltei uma risada curta e sem humor.

— Eu adoraria, mas aparentemente o desastre veio com cláusulas.

A frase fez o rosto dela mudar. Marina estendeu a mão de novo, mais devagar, sem forçar.

— Me deixa ver.

Por alguns segundos, continuei segurando o contrato como se ele pudesse desaparecer se eu apertasse com força suficiente. Não desapareceu. O papel continuou ali, frio, formal e ridiculamente real. Então entreguei as folhas a ela.

Marina começou pela primeira página. Vi o momento exato em que ela encontrou meu nome, porque seus dedos apertaram a borda do papel. Depois os olhos dela desceram pelas cláusulas, cada linha apagando um pouco mais da cor do seu rosto.

— Isso é um contrato de casamento — ela disse.

— Tecnicamente, é uma "aliança patrimonial estratégica".

— Serena.

— O nome bonito foi dele, não meu.

Ela ignorou minha tentativa de humor e continuou lendo. Quando chegou à cláusula sobre imagem pública, levantou os olhos para mim.

— Doze meses?

Assenti, encostando na bancada da pia.

— Um ano de casamento, aparições públicas, confidencialidade e mais algumas palavras caras para dizer que eu devo sorrir ao lado dele enquanto todo mundo acredita que isso foi uma escolha.

— E foi?

Olhei para ela.

— Você está me perguntando isso de verdade?

— Estou perguntando por que preciso ouvir você dizer.

A pergunta me incomodou mais do que deveria, talvez porque a resposta fosse simples e, ao mesmo tempo, não fosse. Ninguém tinha colocado uma caneta na minha mão. Ninguém tinha me obrigado a assinar. Ainda assim, aquele contrato parecia ter sido colocado no meio de uma sala em chamas com a única saída desenhada no rodapé.

— Não — respondi. — Não foi uma escolha. Foi uma armadilha bem escrita.

Marina baixou os olhos para as folhas de novo.

— Mamãe sabia?

Fiquei em silêncio por tempo demais.

Ela entendeu.

— Claro que sabia — murmurou, fechando os olhos por um instante. — Ela sabia e não contou.

— Ela disse que sabia que ele tinha uma proposta. Não que ele ia me transformar em uma solução matrimonial.

— E você acredita?

Passei a mão pela testa, tomando cuidado para não borrar a maquiagem.

— Eu não sei mais no que acredito.

Marina dobrou as folhas com cuidado, como se o contrato fosse algo sujo demais para tocar, mas perigoso demais para rasgar.

— Você não vai assinar isso.

A firmeza dela quase me fez respirar melhor.

Quase.

— O prazo é amanhã às seis.

Ela parou.

— O quê?

Apontei para a última página.

— Amanhã. Se eu não responder, ele retira o suporte emergencial e "reavalia participação nas tratativas envolvendo o Grupo Avelar".

Marina leu a frase, e o silêncio que veio depois foi pior do que qualquer grito.

— Ele sabe das dívidas — ela disse, mais baixo.

— Sabe mais do que eu.

Minha voz saiu menor do que eu queria. Marina percebeu, porque a expressão dela suavizou, e isso quase me quebrou mais do que a raiva.

— Serena...

— Não faz essa cara.

— Que cara?

— Como se eu estivesse prestes a desmoronar.

Ela segurou minha mão antes que eu pudesse afastar.

— E se estiver?

Olhei para o nosso reflexo no espelho. Duas mulheres bem-vestidas, dentro de um banheiro impecável, segurando um contrato que parecia ter sido escrito para transformar sacrifício em estratégia.

Respirei fundo.

— Então eu desmorono depois do evento.

Marina continuou segurando minha mão por alguns segundos, como se estivesse com medo de eu sair dali e simplesmente voltar a fingir que nada tinha acontecido.

O pior era que essa era exatamente a minha intenção.

— Serena, você precisa contar para mamãe que leu isso.

Puxei minha mão devagar e peguei o contrato da mão dela.

— Mamãe sabe o bastante.

— Não sabe o que isso está fazendo com você.

Soltei o ar pelo nariz, tentando dobrar as folhas sem amassá-las mais do que já estavam.

— Isso não importa agora.

— Claro que importa.

— Marina, tem um salão cheio de pessoas lá fora observando cada passo nosso. Se eu sair daqui chorando, tremendo ou com cara de quem descobriu que a própria vida virou um contrato, alguém vai notar.

— Você não precisa ser perfeita o tempo todo.

Olhei para ela pelo espelho.

— Hoje eu preciso.

Ela abriu a boca para responder, mas desistiu quando percebeu que eu não estava dizendo aquilo por orgulho. Era necessidade. Talvez fosse a única coisa que eu ainda conseguisse controlar naquela noite.

Guardei o contrato dentro da bolsa pequena e ajeitei o vestido, passando as mãos pelo tecido azul-marinho como se pudesse alisar também tudo que estava fora do lugar dentro de mim. Os brincos brilharam no espelho quando virei o rosto, e por um segundo senti vontade de arrancá-los e deixar em cima da pia.

Não fiz.

— Você vai voltar para o salão com isso dentro da bolsa? — Marina perguntou.

— Vou.

— E vai fingir que está tudo bem?

Peguei o batom pequeno que tinha levado comigo e retoquei a boca com mais calma do que sentia. Minha mão não tremia. Pelo menos isso.

— Não vou fingir que está tudo bem. Vou fingir que ainda não sei o quanto está ruim.

Marina me encarou em silêncio. A preocupação dela estava começando a virar raiva, e eu conhecia bem aquele estágio. Primeiro ela tentava entender. Depois tentava me salvar. Quando percebia que eu não deixaria, ficava furiosa comigo por não facilitar.

— Isso é absurdo — ela disse.

— Eu sei.

— Você não pode aceitar.

— Eu sei.

— Então por que parece que está considerando?

A pergunta ficou entre nós por tempo demais.

Fechei o batom e guardei na bolsa. Queria responder que ela estava errada. Que eu jamais consideraria algo tão ridículo, tão invasivo, tão frio. Queria dizer que Caio Meirelles podia pegar aquele contrato e transformar em decoração para a sala reservada dele.

Mas o prazo era amanhã.

E as dívidas existiam.

E mamãe tinha olhado para mim com culpa, não surpresa.

— Porque ele colocou a minha família do outro lado da recusa — respondi, por fim.

Marina baixou os olhos.

— Isso não é justo.

— Eu também percebi.

Ela deu uma risada fraca, sem humor nenhum, e passou a mão pelo cabelo.

— Eu odeio ele.

— Entra na fila.

— A fila está grande?

— Começou comigo, mas aceito companhia.

Por um segundo, nós duas quase sorrimos. Quase. Foi pouco, mas suficiente para eu lembrar que Marina ainda estava ali. Que eu ainda não estava completamente sozinha dentro daquela insanidade.

Ela se aproximou e ajeitou uma mecha do meu cabelo que tinha caído perto do rosto.

— Você não precisa decidir hoje.

— Segundo ele, preciso decidir até amanhã às seis.

— Então amanhã a gente pensa.

Balancei a cabeça, sentindo a garganta apertar.

— Hoje eu termino o evento.

Marina não gostou da resposta, mas também não tentou impedir quando caminhei até a porta. Antes de abrir, ela segurou meu braço.

— Serena.

Olhei para ela.

— Quando você sentir que vai carregar tudo sozinha, lembra que eu também sou Avelar.

Essa frase me atingiu de um jeito que eu não estava preparada para sentir. Engoli seco e forcei um sorriso pequeno.

— Péssima hora para você decidir ser útil.

Ela riu baixinho, mesmo com os olhos preocupados.

— Insuportável.

— De família.

Abri a porta antes que qualquer uma de nós dissesse algo que fizesse a maquiagem correr perigo. O corredor estava vazio, mas a música do salão voltou a crescer ao fundo, como se a noite estivesse me chamando de volta para o papel que eu ainda precisava interpretar.

Respirei fundo.

— Vamos acabar com essa gala — murmurei.

Marina saiu ao meu lado.

— E depois?

Toquei a bolsa pequena, sentindo o envelope contra os dedos.

— Depois eu descubro como não acabar junto.

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