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Capítulo 9

Voltei para o salão com Marina ao meu lado e o contrato pesando dentro da bolsa como se tivesse ganhado vida própria.

Por fora, nada tinha mudado. A música continuava baixa, os convidados ainda conversavam em pequenos grupos e os garçons circulavam com bandejas impecáveis, oferecendo bebidas para pessoas que sorriam como se aquela noite fosse apenas mais um evento elegante. Por dentro, eu tinha a sensação de estar carregando uma bomba embrulhada em papel timbrado.

— Para de apertar a bolsa — Marina murmurou ao meu lado.

Soltei os dedos imediatamente.

— Não estou apertando.

Ela olhou para minha mão.

— Serena.

— Estou segurando com firmeza. Existe diferença.

— Existe. Mas você está quase arrancando a alça.

Respirei fundo e relaxei a mão, mesmo sabendo que aquilo não mudava nada. O envelope continuava ali. O prazo continuava sendo amanhã. E Caio Meirelles continuava existindo no mesmo salão que eu, o que por si só já parecia uma provocação.

Procurei por mamãe primeiro. Ela estava perto da mesa principal, conversando com um casal de investidores, postura elegante e sorriso no lugar. Quando seus olhos encontraram os meus, percebi a pergunta silenciosa antes mesmo que ela tentasse disfarçar.

Eu desviei.

Ainda não.

Não ali.

— Você vai falar com ela? — Marina perguntou.

— Vou.

— Quando?

— Quando eu conseguir olhar para mamãe sem perguntar quantas coisas ela decidiu esconder de mim.

Marina não respondeu de imediato. Quando olhei para ela, vi que sua expressão tinha endurecido.

— Eu também quero saber.

— Não começa.

— Não vou começar nada no meio da gala, mas não acha estranho? Mamãe sabia que Caio tinha uma proposta, ele sabia das dívidas, e você foi a única tratada como se não precisasse entender nada até o último minuto.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

Parei perto de uma das mesas laterais e peguei uma taça nova de água, apenas para ter algo nas mãos que não fosse a bolsa.

— Marina, se você continuar falando, eu vou ter que pensar sobre isso. E se eu pensar sobre isso agora, talvez eu faça algo pouco elegante.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Tipo jogar água em alguém?

Olhei para a taça.

— Estou avaliando possibilidades.

Marina quase sorriu, mas o sorriso morreu quando seu olhar passou por cima do meu ombro. Não precisei perguntar. Senti antes de virar.

Caio estava do outro lado do salão, conversando com um homem de cabelos grisalhos que eu reconheci como um dos investidores mais resistentes à venda das ações. Ele parecia atento à conversa, mas havia algo no modo como segurava a taça, no modo como mantinha o corpo levemente virado para a nossa direção, que me deu a sensação irritante de que ele sabia exatamente onde eu estava.

— Ele está olhando? — perguntei, sem virar totalmente.

Marina fingiu beber um gole.

— Não diretamente.

— Isso quer dizer sim.

— Quer dizer que ele parece alguém que não precisa olhar diretamente para incomodar.

Soltei uma risada baixa.

— Ótima descrição. Vou colocar no contrato.

— Não brinca com isso.

A seriedade na voz dela me puxou de volta. Olhei para minha irmã, e por um segundo a gala inteira pareceu distante. Marina estava tentando parecer calma, mas os dedos dela apertavam a haste da taça. Ela também estava assustada. Talvez só tivesse mais prática em transformar medo em bronca.

— Eu não vou assinar sem pensar — falei baixo.

— Essa frase não me tranquiliza.

— Era o máximo que eu podia oferecer agora.

Antes que Marina respondesse, Patrícia apareceu perto de nós, discreta, mas com a urgência estampada no rosto.

— Serena, desculpa interromper.

Fechei os olhos por um segundo.

— Por favor, me diz que o buffet não acabou.

— Não. Está tudo certo com o buffet.

— Então me dá uma notícia boa. Eu estou precisando.

Patrícia hesitou, olhando rapidamente para Marina antes de voltar para mim.

— O senhor Meirelles pediu para antecipar a reunião com os investidores principais.

Meu estômago apertou.

— Antecipar para quando?

— Agora.

Marina olhou para mim na mesma hora.

Mantive o rosto firme, porque Patrícia não tinha culpa de estar no meio daquela insanidade. Pelo menos eu esperava que não tivesse.

— E por que está avisando a mim?

Patrícia engoliu seco.

— Porque ele pediu sua presença.

— Minha presença? — repeti, mantendo a voz baixa.

Patrícia assentiu, desconfortável.

— Ele disse que seria importante.

Marina soltou uma risada curta ao meu lado, sem nenhum humor.

— Que educado da parte dele decidir o que é importante.

Olhei para ela de lado.

— Marina.

— Estou calada.

— Não está.

— Mas posso ficar.

Patrícia continuava parada à nossa frente, esperando uma resposta. Respirei fundo e entreguei a taça de água para Marina antes que eu mudasse de ideia e usasse aquilo de uma forma pouco apropriada para uma gala.

— Onde?

— Na sala reservada — Patrícia respondeu.

Claro.

A bendita sala reservada começava a parecer menos um espaço de reunião e mais uma extensão da vontade de Caio Meirelles.

— Avise que estou indo — respondi.

Patrícia assentiu e se afastou rápido, provavelmente aliviada por sair inteira daquela conversa.

Marina segurou meu braço antes que eu desse o primeiro passo.

— Serena, você não precisa ir.

— Preciso.

— Por quê?

Olhei para o outro lado do salão. Caio já não estava mais onde eu tinha visto antes. Isso me irritou mais do que deveria. O homem sumia e aparecia como se o salão obedecesse aos movimentos dele.

— Porque, se ele pediu minha presença na frente de investidores, não aparecer pode parecer uma resposta. E eu não vou deixar Caio Meirelles construir uma narrativa com a minha ausência.

Marina me observou por um segundo, ainda contrariada, mas soltou meu braço.

— Então constrói a sua.

Assenti, guardando a frase dela como quem guarda uma arma pequena antes de entrar em uma sala perigosa.

Quando cheguei ao corredor, ouvi vozes antes mesmo de alcançar a porta. A sala reservada estava aberta, e dessa vez havia mais gente lá dentro. Quatro investidores conversavam em pé, alguns com taças nas mãos, enquanto a mesa de madeira escura servia apenas de apoio para copos, pastas e uma jarra de água que ninguém parecia interessado em tocar.

Mamãe estava perto da janela, rígida demais para parecer confortável, e Caio permanecia ao lado da mesa, perfeitamente à vontade no espaço que ele tinha pedido, como se a sala tivesse sido montada ao redor dele.

Mamãe me viu primeiro. Seu olhar veio rápido para o meu rosto, depois para minha bolsa. Não precisei de mais nada para entender que ela sabia exatamente o que eu carregava ali.

Entrei mesmo assim.

— Desculpem a demora — falei, com um sorriso educado. — Estava verificando alguns detalhes do evento.

O senhor Vasconcelos sorriu de um jeito que me fez lembrar por que eu nunca gostei tanto dele.

— Sempre atenta, Serena. Seu pai também era assim.

— Ele me ensinou bem — respondi, embora a frase tenha arranhado um pouco por dentro.

Caio olhou para mim nesse momento. Não disse nada, mas havia algo irritante na calma dele, como se já soubesse que eu escolheria a resposta certa.

— Estávamos falando sobre os próximos passos do Grupo Avelar — mamãe explicou, a voz firme demais. — Caio acredita que ainda existem alternativas.

— Alternativas são sempre bem-vindas quando não vêm disfarçadas de armadilha — respondi antes de conseguir segurar.

O silêncio caiu rápido.

Um dos investidores ergueu as sobrancelhas. Mamãe ficou imóvel. Caio, por outro lado, apenas me observou por um segundo a mais, e o canto da boca dele ameaçou se mover.

— Serena se refere ao cuidado necessário em qualquer negociação — ele disse, olhando para os homens ao redor. — Cautela é uma qualidade rara.

Virei o rosto para ele.

— Que bom que o senhor reconhece.

— Reconheço quando vejo.

A resposta veio educada. Quase elogiosa. Para qualquer pessoa naquela sala, talvez parecesse apenas uma troca profissional. Para mim, soou como provocação.

O senhor Vasconcelos pigarreou e ajustou a taça entre os dedos, olhando de Caio para mim.

— A questão é simples. O mercado ainda respeita o nome Avelar, mas respeito não paga dívida nem sustenta operação. O que o Grupo Meirelles propõe, exatamente?

Caio não respondeu de imediato. Em vez disso, olhou para mim, como se minha presença fosse parte da resposta.

Senti minha coluna endurecer.

— O Grupo Meirelles está disposto a assumir uma posição estratégica nas tratativas — ele disse, sem desviar de mim no primeiro segundo. Só depois voltou aos investidores. — Desde que exista estabilidade pública suficiente para impedir uma leitura de colapso.

— Estabilidade pública? — perguntei.

Caio voltou o olhar para mim.

— Confiança.

— Que palavra bonita.

— Prefere outra?

— Transparência.

Mamãe olhou para mim com um aviso silencioso. Ignorei. Se Caio queria minha presença ali, teria que lidar com ela.

Caio apoiou os dedos na borda da mesa, sem perder a calma.

— Transparência é útil quando não destrói antes de construir.

— E esconder é útil quando favorece quem já sabe demais?

O senhor Vasconcelos olhou de mim para Caio, interessado demais. Percebi o risco tarde, mas não recuei. Caio também percebeu. A diferença era que ele parecia gostar.

— A senhorita Avelar tem razão em exigir cuidado — ele disse aos investidores. — Por isso a participação dela será essencial em qualquer próxima etapa.

Meu estômago afundou.

Participação dela.

Qualquer próxima etapa.

Ele não tinha dito casamento. Não precisava. A frase fazia o trabalho sujo sem manchar as mãos.

Inclinei a cabeça, mantendo o sorriso no lugar.

— Minha participação costuma depender de eu concordar com a etapa.

— Naturalmente — Caio respondeu.

Mas o olhar dele dizia outra coisa.

Os investidores não perceberam. Mamãe percebeu. Eu também.

E odiei o fato de entender exatamente o que ele estava fazendo.

Ele não estava apenas negociando com eles.

Estava me colocando diante de todos como se minha entrada no jogo já fosse inevitável.

A reunião não durou muito depois disso.

Caio conduziu a conversa com a mesma calma irritante de sempre, falando sobre possibilidades, transição, imagem pública e preservação de valor como se cada palavra tivesse sido escolhida para parecer solução e esconder ameaça. Eu permaneci ao lado de mamãe, respondendo apenas quando necessário, sorrindo apenas quando esperavam de mim e recusando qualquer tentativa de me colocar como peça confirmada em um tabuleiro que eu ainda não tinha aceitado.

Quando os investidores começaram a sair da sala, o senhor Vasconcelos segurou minha mão por alguns segundos a mais do que o necessário.

— Você tem postura, Serena. Seu pai teria orgulho.

Sorri, mesmo sentindo a frase bater onde não deveria.

— Obrigada.

Esperei o último investidor sair antes de respirar de verdade. Mamãe tentou se aproximar, mas eu me afastei com um gesto pequeno.

— Depois, mamãe.

Ela parou. Talvez tenha entendido. Talvez só estivesse cansada demais para insistir.

Saí da sala reservada com a bolsa apertada contra o corpo e o contrato ainda mais pesado lá dentro. O corredor estava vazio, mas eu mal tinha dado alguns passos quando ouvi a voz de Caio atrás de mim.

— Você foi melhor do que eu esperava.

Parei devagar.

Claro que ele tinha vindo.

Virei apenas o rosto, sem dar a ele o prazer de me ver completamente voltada.

— Que pena. Eu esperava menos do senhor.

Caio se aproximou um passo, mantendo distância suficiente para parecer educado e perto o bastante para me irritar.

— Ainda espera.

— Não confunda esperança com falta de paciência.

Ele olhou para minha bolsa por um segundo, depois voltou os olhos para mim.

— Leu o contrato.

Não era pergunta.

Apertei a alça entre os dedos.

— Leio tudo antes de decidir onde vou jogar fora.

O canto da boca dele ameaçou se mover.

— Então sabe do prazo.

— Sei.

— Amanhã, às seis.

— O senhor gosta mesmo de repetir ameaças com educação.

— Gosto de garantir que fui entendido.

Sustentei o olhar dele, mesmo com o coração batendo mais forte do que eu gostaria.

— Eu entendi desde o começo, Caio.

Foi a primeira vez que usei apenas o nome dele.

Percebi no mesmo instante.

Ele também.

O silêncio entre nós mudou de peso.

Caio inclinou a cabeça, quase imperceptível, como se aquela pequena vitória fosse suficiente por enquanto.

— Então amanhã pode ser interessante para nós dois.

Ele se afastou antes que eu respondesse.

Fiquei parada no corredor, odiando o fato de ter dito o nome dele com tanta naturalidade.

E odiando ainda mais saber que, até amanhã às seis, eu teria que decidir quanto da minha vida ainda era realmente minha.

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