Capítulo 10
A gala terminou com taças recolhidas, flores intactas e sorrisos suficientes para convencer qualquer pessoa desatenta de que a noite tinha sido um sucesso.
Eu deveria me sentir aliviada, mas a única coisa que sentia era o peso do contrato dentro da bolsa pequena, ocupando mais espaço do que qualquer papel deveria ocupar. Enquanto os últimos convidados deixavam o salão e os funcionários começavam a desmontar parte da decoração, agradeci presenças, respondi elogios e aceitei comentários sobre como os Avelar ainda sabiam organizar uma noite impecável.
A palavra "impecável" quase me fez rir mais de uma vez.
— Serena — mamãe chamou, aproximando-se devagar. — Já podemos ir.
Olhei para ela por alguns segundos antes de responder. A maquiagem continuava perfeita, o cabelo estava no lugar e a postura dela permanecia elegante, mas agora eu conseguia ver além disso. Conseguia enxergar a culpa no jeito como segurava a bolsa, a preocupação na linha apertada da boca e o medo que ela tentava transformar em controle.
— Marina já foi para o carro?
— Está esperando lá fora.
Assenti e comecei a caminhar sem dizer mais nada. Mamãe acompanhou meus passos, mas nenhuma de nós tocou no assunto. Não ali. Não com funcionários por perto, não com Patrícia conferindo detalhes finais, não com o nome Avelar ainda iluminado na entrada como se não estivesse prestes a virar lembrança.
Do lado de fora, o ar da noite bateu frio nos meus ombros. Marina estava perto do carro, mexendo no celular, mas guardou o aparelho assim que me viu.
— Finalmente — ela disse, tentando soar leve e falhando com pouca dignidade. — Achei que teria que entrar lá e te resgatar de algum investidor falando sobre oportunidade.
— Oportunidade virou uma palavra proibida — respondi, abrindo a porta de trás.
Marina olhou para a bolsa na minha mão.
— Justo.
Entrei no banco de trás, e ela sentou ao meu lado. Mamãe entrou no banco do motorista, ajustou o retrovisor e ficou alguns segundos com as mãos paradas no volante antes de ligar o carro. Esse pequeno atraso me incomodou mais do que qualquer explicação teria incomodado.
Quando saímos do estacionamento, a cidade começou a passar pelas janelas em luzes borradas. Ninguém parecia disposto a fingir normalidade. Nem mesmo Marina, que geralmente encontrava alguma coisa sarcástica para dizer quando o mundo ficava pesado demais.
Dessa vez, o peso venceu primeiro.
— Você vai falar alguma coisa? — perguntei, olhando para mamãe pelo retrovisor.
Ela respirou fundo antes de responder.
— Não sei por onde começar.
Soltei uma risada baixa, sem humor.
— Pela parte em que eu passei meses tentando entender onde a empresa estava afundando e, ainda assim, descobri dívidas pelo contrato de um homem que conheci hoje. Parece um bom início.
Marina ficou imóvel ao meu lado.
Mamãe apertou o volante com mais força.
— Eu não queria que você descobrisse assim.
— Eu não queria descobrir por ele.
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava, e talvez por isso tenha pesado mais dentro do carro.
— Serena... — Marina chamou, mas eu não desviei os olhos de mamãe.
— Eu estava lá todos os dias. Eu vi planilhas, reuniões, cortes, fornecedores cobrando, investidores recuando. Eu fiquei ao seu lado enquanto a empresa desmoronava, mamãe. Como eu não vi isso?
Ela demorou para responder, e o silêncio fez meu estômago apertar.
— Porque seu pai manteve algumas negociações fora dos relatórios principais.
A frase ficou presa no ar.
— Papai fez o quê? — Marina perguntou antes de mim.
Mamãe manteve os olhos na rua, mas vi pelo retrovisor que sua expressão falhou por um segundo.
— Ele tentou renegociar algumas dívidas antes de morrer. Achou que conseguiria resolver sem envolver vocês.
A raiva veio primeiro. Depois a culpa. Depois uma sensação horrível de ter sido deixada do lado de fora da própria queda.
— E você sabia?
Mamãe respirou fundo.
— Descobri depois.
— Quando?
Ela não respondeu de imediato.
Apertei a bolsa contra o colo.
— Quando, mamãe?
— Algumas semanas depois do enterro.
Fechei os olhos por um segundo. Algumas semanas depois do enterro, eu estava dentro da empresa tentando segurar reuniões, acalmar funcionários e convencer a mim mesma de que, se trabalhasse o bastante, talvez conseguisse honrar tudo que papai tinha construído.
E, enquanto isso, existia uma parte inteira do problema que ninguém colocou na minha frente.
— Eu poderia ter procurado outra saída — falei.
— Você já estava carregando demais.
— Esse não é o ponto.
— Para mim era.
— Mas para a empresa não. — Minha voz endureceu antes que eu conseguisse controlar. — Eu não estou brava porque você tentou me poupar. Eu entendo isso melhor do que qualquer pessoa nessa família. Estou brava porque me deixou tentar resolver um problema faltando metade das informações.
Marina soltou o ar devagar ao meu lado, como se tivesse acabado de entender exatamente onde aquilo doía.
Mamãe não respondeu. Apenas continuou dirigindo, os dedos firmes demais no volante.
— As dívidas no contrato são reais? — perguntei.
— Algumas.
— Algumas — repeti, sentindo a palavra pesar. — Claro. Porque aparentemente ainda tem mais.
Marina passou a mão pelo cabelo, irritada.
— Mamãe, quanto falta a gente saber?
O carro parou em um sinal vermelho. Mamãe olhou para nós pelo retrovisor, e pela primeira vez naquela noite eu não vi a mulher elegante da gala. Vi minha mãe. Cansada, assustada e tentando manter juntas partes que já estavam cedendo havia tempo.
— O suficiente para Caio Meirelles ser a única pessoa oferecendo uma saída rápida.
O sinal abriu, mas por um segundo mamãe não acelerou.
Eu toquei a bolsa pequena com a ponta dos dedos, sentindo o contorno do envelope.
Amanhã, às seis.
Caio tinha me dado um prazo.
Papai tinha deixado buracos que eu não vi.
E mamãe tinha me colocado diante da verdade tarde demais.
A primeira folha não parecia diferente de qualquer outro documento financeiro. Tinha datas, valores, assinaturas pequenas demais e observações feitas à mão na lateral. Mas a data no canto superior me prendeu antes de qualquer número.
Oito meses antes da morte do papai.
Passei os dedos pela borda do papel, tentando entender como algo tão antigo tinha ficado escondido enquanto eu passava dias inteiros dentro da empresa, procurando respostas que talvez nunca estivessem lá.
— Ele já sabia — murmurei.
Mamãe não respondeu.
Marina se aproximou da mesa, deixando os saltos no chão sem cuidado nenhum.
— Sabia há oito meses?
Virei a página devagar. Havia uma sequência de renegociações, valores divididos, prazos estendidos e nomes de credores que eu reconhecia de reuniões recentes. O problema não tinha começado depois da morte dele. Não tinha surgido quando mamãe adoeceu, nem quando eu assumi mais coisas do que deveria.
Ele já estava ali.
Crescendo em silêncio.
— Por que ele não contou? — Marina perguntou, mais para si mesma do que para nós.
Olhei para mamãe, mas ela continuava encarando a pasta como se cada folha tivesse a força de puxá-la para uma época que ela não queria visitar.
— Porque ele achou que conseguiria resolver — ela disse.
— Sozinho? — perguntei.
Mamãe respirou fundo.
— Seu pai sempre achou que proteger era carregar sem dividir.
A frase deveria me dar algum conforto.
Não deu.
Abaixei os olhos para a folha seguinte e encontrei uma anotação no canto inferior, escrita com a letra firme do papai.
"Não envolver Serena. Verificar ligação M-19."
Meu corpo ficou frio.
— M-19? — Marina leu por cima do meu ombro.
Mamãe levantou o rosto rápido demais.
Rápido demais para ser surpresa.
Lento demais para ser inocência.
Segurei a folha com mais força, sentindo o contrato de Caio ao lado da pasta como se os dois documentos respirassem juntos sobre a mesa.
— Mamãe — falei, sem tirar os olhos dela. — O que é M-19?
Ela abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu.
E foi nesse silêncio que eu entendi: Caio Meirelles não tinha sido a primeira coisa escondida de mim.
Tinha sido apenas a primeira a bater na minha porta.
Mamãe desviou os olhos primeiro.
Foi rápido, mas suficiente para eu perceber que ela não queria continuar naquela direção. A anotação de papai ainda estava sobre a mesa, pequena demais para o tamanho do incômodo que tinha causado dentro do escritório.
— M-19 não é o assunto de agora — ela disse, fechando a pasta com cuidado.
Marina franziu a testa.
— Como não é o assunto de agora? Papai escreveu isso em uma pasta cheia de dívidas escondidas.
— Eu sei o que ele escreveu, Marina.
— Então explica.
Mamãe apoiou a mão sobre a capa cinza, como se aquilo fosse impedir que mais alguma coisa escapasse dali.
— Eu não tenho o que explicar. Seu pai usava códigos para muitas negociações. Pode ser um contrato, uma conta, uma reunião, qualquer coisa.
Soltei uma risada baixa, sem humor.
— Que conveniente.
Ela olhou para mim, cansada.
— Serena, eu entendo que você queira respostas, mas ficar presa em uma anotação antiga não muda o que está na nossa frente agora.
— O que está na nossa frente é justamente resultado de coisas antigas que ninguém me contou.
Mamãe ficou em silêncio por um segundo, e eu percebi que tinha acertado mais fundo do que pretendia. Ainda assim, ela não abriu a pasta de novo. Apenas empurrou o contrato de Caio alguns centímetros na minha direção, como se aquele papel fosse mais urgente do que qualquer pergunta sobre papai.
— Amanhã, às seis — ela disse.
Olhei para o envelope escuro, sentindo meu corpo inteiro rejeitar a existência dele.
— Eu sei o prazo.
— Então sabe que não temos muito tempo.
Marina cruzou os braços.
— Você está mesmo pedindo para ela considerar isso?
Mamãe respirou fundo antes de responder. Quando falou, não olhou para Marina. Olhou para mim.
— Estou pedindo para ela entender o tamanho da escolha antes de recusar.
A frase me incomodou porque não soou como pressão. Soou como medo. E medo vindo da minha mãe sempre me atingia de um jeito diferente, porque mamãe podia ser muitas coisas, mas não costumava parecer assustada.
Peguei o contrato e folheei sem realmente ler. As cláusulas já estavam gravadas na minha cabeça: doze meses, imagem pública, confidencialidade, aparições conjuntas, suporte emergencial. Palavras frias para uma vida que ainda era minha.
Pelo menos deveria ser.
— Ele não está oferecendo ajuda — falei. — Está comprando controle.
— Talvez — mamãe respondeu, baixa. — Mas controle é diferente de destruição.
Ergui os olhos para ela.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Não. Deveria te fazer pensar.
Marina soltou o ar com força e se afastou da mesa, irritada demais para ficar parada.
— Isso é absurdo. Vocês estão falando como se casamento fosse uma estratégia de mercado.
— Porque para Caio Meirelles é exatamente isso — respondi.
Mamãe não negou.
E foi essa ausência de negação que fez o escritório parecer menor.
Passei os dedos pela borda do contrato, tentando ignorar o peso que crescia no meu peito. Eu queria rasgar aquilo. Queria jogar tudo no lixo, subir para o quarto, tirar o vestido, arrancar os brincos e dormir até a vida voltar a fazer algum sentido. Mas Isaac dormia no andar de cima, Marina estava ao meu lado, mamãe parecia prestes a quebrar de cansaço, e o nome Avelar continuava preso em cada página daquela pasta.
— Se eu disser não — perguntei, olhando para mamãe — o que acontece?
Ela demorou a responder.
Demorou demais.
— Perdemos o suporte emergencial.
— Isso eu já li.
— E talvez percamos a chance de negociar antes que alguns processos avancem.
Marina ficou imóvel.
— Processos?
Mamãe fechou os olhos por um instante, como se tivesse se arrependido da palavra assim que ela saiu.
Eu senti a decisão se aproximar não como aceitação, mas como uma armadilha ficando menor ao meu redor.
— Quantos? — perguntei.
— Serena...
— Quantos, mamãe?
Ela abriu os olhos.
— O suficiente para não termos tempo.
O escritório ficou silencioso.
Dessa vez, não olhei para a pasta de papai. Nem para a anotação M-19. Olhei para o contrato de Caio, e pela primeira vez desde que ele colocou aquela proposta diante de mim, entendi por que ele estava tão calmo.
Ele não precisava me convencer.
Só precisava esperar que a realidade fizesse isso por ele.
Ninguém disse nada por alguns segundos.
Marina estava perto da janela, de braços cruzados, olhando para qualquer lugar que não fosse o contrato. Mamãe continuava sentada diante da mesa, com os ombros rígidos e a expressão de quem já tinha passado noites demais tentando encontrar uma saída em silêncio.
Eu fiquei entre as duas, encarando o envelope escuro.
Era ridículo pensar que algumas folhas podiam mudar uma vida inteira. Papéis deveriam servir para registrar decisões, não para empurrar alguém contra uma parede. Mas aquele contrato parecia fazer exatamente isso.
Peguei a primeira página e passei os olhos pelo meu nome mais uma vez.
Serena Avelar.
Não Serena Meirelles.
Ainda não.
A simples possibilidade fez meu estômago embrulhar.
— Eu não quero isso — falei, mais para mim mesma do que para elas.
Marina se virou na mesma hora.
— Então não faça.
Olhei para minha irmã e quis que fosse simples assim. Quis que a resposta dela bastasse, que minha recusa pudesse caber dentro de uma frase bonita, firme e corajosa. Mas coragem não pagava dívida. Orgulho não segurava processo. E amor pela família, por mais injusto que fosse admitir, às vezes parecia uma corda colocada no pescoço por mãos que a gente conhecia.
Mamãe abriu a boca, mas eu levantei a mão antes que ela dissesse qualquer coisa.
— Não fala.
Ela obedeceu.
Peguei meu celular dentro da bolsa pequena. A tela acendeu, mostrando o horário: 00h43. Domingo já tinha começado, e o prazo de Caio parecia mais próximo do que antes.
Marina deu um passo na minha direção.
— Serena, o que você vai fazer?
Meus dedos ficaram parados sobre a tela por alguns segundos. Eu não tinha o número dele salvo, mas havia uma mensagem recente da equipe Meirelles confirmando detalhes do evento. Era o suficiente para chegar até ele. Claro que era. Homens como Caio Meirelles nunca estavam realmente inacessíveis; só faziam as pessoas acreditarem que estavam.
Digitei devagar.
"Amanhã. Meio-dia. Precisamos conversar."
Antes de enviar, encarei a mensagem por tempo demais.
— Isso não é aceitar — Marina disse, como se precisasse acreditar nisso.
Olhei para ela.
— Não.
Então apertei enviar, a mensagem apareceu na tela, curta, limpa e perigosa.
Por quase um minuto, nada aconteceu. Eu já estava prestes a guardar o celular quando ele vibrou na minha mão.
Uma resposta, sem saudação, sem surpresa.
Como se ele estivesse esperando.
"Pontual. Gosto disso."
Fechei os dedos ao redor do aparelho, sentindo uma raiva fria subir pelo meu peito.
Caio Meirelles não tinha vencido, ainda não.
Mas eu tinha acabado de entrar no jogo.
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